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sábado, 6 de março de 2010

Meditação da Liturgia de domingo, Lc 13, 1-9 - Conversão é a reposta mais eficaz perante o mal



Ano C
III Domingo da Quaresma
Ex 3,1-18a.13-15
Sl 102
1Cor 10,1-6.10-12
Lc 13, 1-9


Conversão é a reposta mais eficaz perante o mal

A passagem do Evangelho de Lucas, que se proclama neste terceiro domingo de Quaresma, apresenta o comentário de Jesus sobre dois acontecimentos da época. O primeiro: a revolta de alguns galileus, que havia sido reprimida por Pilatos com derramamento de sangue; o segundo: a derrubada de uma torre em Jerusalém, que havia causado dezoito vítimas. Dois acontecimentos trágicos muito diferentes entre si: um causado pelo homem; o outro acidental.

Segundo a mentalidade daquela época, as pessoas tendiam a pensar que a desgraça havia recaído sobre as vítimas por causa de sua grave culpa. Jesus, pelo contrário, diz: «Pensais que esses galileus eram mais pecadores que todos os demais galileus, porque padeceram estas coisas?... Ou aqueles dezoito sobre os que se desmoronou a torre de Siloé, matando-os, pensais que eram mais culpados que os demais homens que habitam Jerusalém?» (Lucas 13, 2.4). Em ambos casos, conclui dizendo; «Não, vos asseguro; e se não vos converterdes, todos perecereis do mesmo modo» (13, 3.5).

Este é, portanto, o ponto ao qual Jesus quer levar quem o escutava: a necessidade da conversão. Não a apresenta em termos moralistas, mas realistas, como única resposta adequada para os acontecimentos que põem em crise as certezas humanas. Ante certas desgraças, adverte, não serve de nada jogar a culpa nas vítimas. O verdadeiramente sábio consiste mais em deixar-se interpelar pela precariedade da existência e assumir uma atitude de responsabilidade: fazer penitência e melhorar nossa vida.

Esta é a sabedoria, esta é a resposta mais eficaz ao mal, em todos os âmbitos, inter-pessoal, social e internacional. Cristo convida a responder ao mal antes de tudo com um sério exame de consciência e com o compromisso de purificar a própria vida. De outro modo, pereceremos, diz, pereceremos da mesma maneira. De fato, as pessoas e as sociedades que vivem sem pôr-se em discussão têm como único destino final a ruína. A conversão, pelo contrário, apesar de que não preserva dos problemas e adversidades, permite enfrentá-los de «maneira» diferente.

Antes de tudo ajuda a prevenir o mal, desativando algumas de suas ameaças. E, em todo caso, permite vencer o mal com o bem, ainda que nem sempre no âmbito dos fatos, que às vezes são independentes de nossa vontade, mas certamente sempre no âmbito espiritual.

Definitivamente: a conversão vence o mal em sua raiz, que é o pecado, ainda que nem sempre possa evitar suas conseqüências. Peçamos a Maria Santíssima que nos acompanhe e apóie no caminho quaresmal, que ajude cada cristão a redescobrir a grandeza, diria inclusive a beleza da conversão. Que nos ajude a compreender que fazer penitência e corrigir a própria conduta não é simples moralismo, mas o caminho mais eficaz para melhorar tanto a nós mesmos como a sociedade. Explica-o muito bem uma acertada máxima: é melhor acender um fósforo que maldizer a escuridão.


Papa Bento XVI
Angelus, 11 de março de 2007

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ano Sacerdotal: Eucaristia e espiritualidade sacerdotal



Eucaristia e espiritualidade sacerdotal

A forma eucarística da existência cristã manifesta-se, sem dúvida, de modo particular no estado de vida sacerdotal. A espiritualidade sacerdotal é intrinsecamente eucarística; a semente desta espiritualidade encontra-se já nas palavras que o bispo pronuncia na liturgia da ordenação: «Recebe a oferenda do povo santo para a apresentares a Deus. Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor». Para conferir à sua existência uma forma eucarística cada vez mais perfeita, o sacerdote deve reservar, já no período de formação e depois nos anos sucessivos, amplo espaço para a vida espiritual. É chamado a ser continuamente um autêntico perscrutador de Deus, embora ao mesmo tempo permaneça solidário com as preocupações dos homens. Uma vida espiritual intensa permitir-lhe-á entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e ajudá-lo-á a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias mesmo difíceis e obscuras. Para isso, juntamente com os padres do Sínodo, recomendo aos sacerdotes «a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis». Tal recomendação é ditada, ante de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação.


Papa Bento XVI
Sacramentum caritatis, nr.80

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A santidade do sacerdote à luz de São Tomás de Aquino



É necessário que o sacerdote se santifique para que a graça sacramental da Ordem frutifique dia a dia

Considerando com profundidade a essência da ordenação sacerdotal e do próprio ministério sagrado, São Tomás nos ensina que o presbítero deve tender à perfeição mais ainda que um religioso ou uma freira. E de fato, para se entender tal ensinamento, basta ter bem presente o alto grau de santidade que a Celebração Eucarística e a santificação das almas exigem de um ministro, como nos adverte o Divino Mestre: “Vós sois o sal da terra; mas, se o sal se torna insosso, com que se salgará? Não servirá para nada senão para jogá-lo fora a fim de que os homens o pisem. Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-14a). Diante dessa enorme responsabilidade, compreende-se o motivo pelo qual não poucos santos tiveram receio da ordenação sacerdotal.

No mesmo sentido, afirma o famoso Pe. Garrigou-Lagrange: “É necessário que o sacerdote se santifique para que a graça sacramental da Ordem frutifique dia a dia”.

Esta questão é de candente atualidade, pois o sucesso maior ou menor de seu ministério em favor dos fiéis pode depender, de modo particular, do próprio sacerdote. Sabemos que os Sacramentos operam com eficácia pelo poder de Cristo, produzindo a graça por si mesmos. No entanto, sua penetração será maior ou menor conforme as disposições interiores de quem os recebe. E aqui entra um elemento subjetivo no qual tem importante papel a ação pastoral do ministro ordenado, pois sua virtude, seu fervor, seu empenho em pregar o Evangelho, em última análise, a santidade de sua vida — a qual é, por sua vez, uma forma excelente e insubstituível de pregação —, podem influenciar os fiéis a receberem os Sacramentos com melhores disposições, beneficiando-se, assim, mais de seus frutos.

Será este o fator de maior relevância no bom desempenho do ministério sacerdotal?

A propósito, na Carta para a Proclamação do Ano Sacerdotal, de 16 de junho p.p., o Santo Padre Bento XVI ressalta que o sacerdote deve aprender de São João Maria Vianney “a sua total identificação com o próprio ministério”, e acrescenta:

Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a Sua ação salvífica era e é expressão do Seu “Eu filial” que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à Sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objetiva do ministério e a subjetiva do ministro.

Por essa razão, deseja o Papa, neste Ano Sacerdotal, “favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual, sobretudo, depende a eficácia de seu ministério”.

É este ponto — de máxima importância para a vida da Igreja, mormente para a missão de anunciar o Evangelho e de santificar os fiéis — que pretendemos abordar nestas páginas: a relação entre eficácia do ministério sacerdotal e santidade pessoal de quem o exerce.

Recorreremos primordialmente ao ensinamento perene de São Tomás de Aquino, cuja importância e atualidade têm sido sublinhadas pelos Papas mais recentes, entre os quais Paulo VI. “É a primeira vez que um Concílio Ecumênico, o Vaticano II, recomenda um teólogo, e este é São Tomás”, afirma ele na Carta Lumen Ecclesiæ. E mais adiante, continua:

É tão poderoso o talento do Doutor Angélico, tão sincero seu amor à verdade e tão grande sua sabedoria ao indagar as verdades mais elevadas, ao explicá-las e relacioná-las com profunda coerência, que sua doutrina é instrumento eficacíssimo, não só para salvaguardar os fundamentos da fé, mas também para dela extrair, de modo útil e seguro, frutos de sadio progresso.


Mons. João Scognamiglio Clá Dias
www.clerus.org

domingo, 17 de janeiro de 2010

BATISMO DO SENHOR – Angelus: Deus nasceu para que pudéssemos renascer




FESTA DO BATISMO DO SENHOR
10 DE JANEIRO
Ofício festivo próprio

Ano C
Is 42,1-4.6-7
Sl 28
At 10,34-38
Lc 3,15s.21-22

Bento XVI: Deus nasceu para que pudéssemos renascer

Discurso de abertura à oração do Angelus

Caros irmãos e irmãs!

Nesta manhã, durante a Santa Missa celebrada na Capela Sistina, administrei o sacramento do Batismo a alguns recém-nascidos. Este costume está ligado à Festa do Batismo do Senhor, com o qual se conclui o tempo litúrgico do Natal. O batismo sugere muito bem o significado global da celebração do Natal, em que o tema de nos tornarmos filhos de Deus por meio da vinda de Seu Filho unigênito em nossa humanidade constitui um elemento dominante. Ele se fez homem para que possamos nos tornar filhos de Deus. Deus nasceu para que nós pudéssemos renascer. Estes conceitos são constantemente retomados nos textos litúrgicos natalinos e constituem um tema entusiasmante para a reflexão e a esperança.

Pensemos no que escreve São Paulo aos Gálatas: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos.” (Gl 4,4-5 ), ou mesmo São João, no prólogo de seu Evangelho: "A quantos, porém, a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus: são os que crêem no seu nome" (Jo 1,12).

É este mistério maravilhoso que constitui nosso "segundo nascimento" - o renascimento de um ser humano a partir do "alto", de Deus (Jo 3,1-8) - é realizado no signo sacramental do batismo.

Por este Sacramento, o homem se torna realmente filho, filho de Deus. A partir de então, o propósito da sua existência passa a ser atingir, de modo livre e consciente, aquele que é, desde o início, o destino do homem. "Torna-te aquilo que és" – é o princípio básico de educação da pessoa humana redimida pela graça.

Tal princípio apresenta muitas analogias com o crescimento humano, no qual a relação dos pais com as crianças, passando, através de crises e desencontros, da total dependência à plena consciência da condição de filho, à gratidão pelo dom da vida recebida, até a maturidade com a capacidade de conferir o dom da vida.

Gerado pelo batismo para uma nova vida, também o cristão inicia sua jornada de crescimento na fé que o levará a invocar conscientemente Deus como “Abbá – Pai”, voltando-se a Ele com gratidão e vivendo a alegria de ser seu filho.

Do batismo também é derivado um modelo de sociedade: o de irmãos. A Fraternidade não pode ser estabelecida por uma ideologia, nem muito menos por decreto de qualquer poder constituído. Nós nos reconhecemos irmãos pela consciência humilde, mas profunda, de sermos filhos de um único Pai Celestial. Como cristãos, graças ao Espírito Santo que recebemos no Batismo, temos a graça de viver como filhos de Deus e como irmãos, para assim sermos o “fermento” de uma nova humanidade, solidária e rica de paz e de esperança. Para isto, nos ajuda ter consciência de que, além de termos um Pai no céu, temos também uma mãe, a Igreja, para a qual a Virgem Maria será um modelo para sempre. A Ela confiamos as crianças recém-nascidas e suas famílias, e pedimos para todos a alegria de renascer a cada dia “do alto”, do amor de Deus, que faz de nós seus filhos e irmãos.


Papa Bento XVI
Angelus, 10 de janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

SOLENIDADE DA EPIFANIA: Um coração sábio e inocente para seguir o caminho do Senhor




SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR
DOMINGO DEPOIS DO NATAL
Ofício solene próprio
03 de janeiro

Ano C
Is 60,1-6
Sl 71
Ef 3,2-3a.5-6
Mt 2,1-12

Caros irmãos e irmãs,

Hoje, Solenidade da Epifania, a grande luz que irradia da Gruta de Belém, através dos Magos provenientes do Oriente, inunda a humanidade inteira. A primeira leitura, tirada do Livro do profeta Isaías, e o trecho do Evangelho de Mateus, que acabamos de ouvir, colocam um ao lado do outro a promessa e o seu cumprimento, naquela particular tensão que se encontra quando se lêem em sequência trechos do Antigo e do Novo Testamento. Eis que aparece diante de nós a maravilhosa visão do profeta Isaías que, depois das humilhações padecidas pelo povo de Israel por parte das potências deste mundo, vê o momento em que a grande luz de Deus, aparentemente sem poder e incapaz de proteger o seu povo, surgirá sobre toda a terra, de maneira que os reis das nações se inclinarão diante dele, virão de todos os confins da terra e depositarão aos seus pés os seus tesouros mais preciosos. Então, o coração do povo trepidará de alegria.

Em comparação com esta visão, aquela que nos apresenta o evangelista Mateus parece pobre e modesta: parece-nos impossível reconhecer nela o cumprimento das palavras do profeta Isaías. Com efeito, a Belém não chegam os poderosos nem os reis da terra, mas alguns Magos, personagens desconhecidas, talvez vistas com suspeita, de qualquer maneira não dignos de atenção particular. Os habitantes de Jerusalém estão informados sobre aquilo que aconteceu, mas não consideram necessário preocupar-se, nem sequer parece haver em Belém alguém que se interesse pelo nascimento deste Menino, chamado pelos Magos Rei dos Judeus, ou por estes homens vindos do Oriente que O vão visitar. Com efeito, pouco depois, quando o rei Herodes faz compreender quem é que efetivamente detém o poder, obrigando a Sagrada Família a fugir para o Egito e oferecendo uma prova da sua crueldade com o massacre dos inocentes (cf. Mt 2, 13-18), o episódio dos Magos parece ser eliminado e esquecido. Portanto, é compreensível que o coração e a alma dos crentes de todos os séculos se sintam mais atraídos pela visão do profeta do que pela sóbria narração do evangelista, como testemunham também as representações desta visita aos nossos presépios, onde aparecem os camelos, os dromedários e os reis poderosos deste mundo que se ajoelham diante do Menino e depositam aos seus pés os seus dons em caixas preciosas. Todavia, é necessário prestar maior atenção àquilo que os dois textos nos comunicam.

Na realidade, que viu Isaías com o seu olhar profético? Num só momento, ele vislumbra uma realidade destinada a marcar toda a história. Mas também o acontecimento que Mateus nos narra não é um breve episódio insignificante, que se conclui com o regresso apressado dos Magos às suas terras. Ao contrário, é um início. Aquelas personagens provenientes do Oriente não são as últimas, mas as primeiras da grande procissão daqueles que, através de todas as épocas da história, sabem reconhecer a mensagem da estrela, sabem caminhar pelas veredas indicadas pela Sagrada Escritura e, assim, sabem encontrar Aquele que é aparentemente fraco e frágil mas que, ao contrário, tem o poder de conferir a maior e mais profunda alegria ao coração do homem. Com efeito, nele manifesta-se a realidade maravilhosa que Deus nos conhece e está próximo de nós, que a sua grandeza e poder não se manifestam na lógica do mundo, mas na lógica de um Menino inerme, cuja força é unicamente a do amor que se confia a nós. No caminho da história, há sempre pessoas que são iluminadas pela luz da estrela, que encontram o caminho e chegam até Ele. Todas vivem, cada uma à sua maneira, a mesma experiência dos Magos.

Eles levaram ouro, incenso e mirra. Sem dúvida, não são dons que correspondem às necessidades primárias ou quotidianas. Naquele momento, a Sagrada Família certamente teria tido mais necessidade de algo diferente do incenso e da mirra, e nem sequer o ouro podia ser-lhe imediatamente útil. Mas estes dons têm um profundo significado: são um ato de justiça. Com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um ato de submissão. Querem dizer que a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem a sua autoridade. A consequência a que isto dá origem é imediata. Os Magos já não podem continuar pelo seu caminho, já não podem regressar para junto de Herodes, já não podem ser aliados com aquele soberano poderoso e cruel. Foram conduzidos para sempre pela senda do Menino, aquela que lhes fará ignorar os grandes e os poderosos deste mundo e que os conduzirá para Aquele que nos espera no meio dos pobres, o único caminho do amor que pode transformar o mundo.

Portanto, os Magos não só se puseram a caminho, mas a partir daquele seu gesto teve início algo de novo, foi traçado um novo caminho, desceu sobre o mundo uma nova luz que não se apagou. Realiza-se a visão do profeta: aquela luz não pode mais ser ignorada no mundo: os homens caminharão rumo àquele Menino e serão iluminados pela alegria que só Ele sabe doar. A luz de Belém continua a resplandecer no mundo inteiro. A quantos a acolheram, Santo Agostinho recorda: "Também nós, reconhecendo Cristo, nosso rei e sacerdote morto por nós, O honramos como se tivéssemos oferecido ouro, incenso e mirra; só nos falta dar testemunho dele, percorrendo um caminho diferente daquele pelo qual viemos" (Sermo 202. In Epiphania Domini, 3, 4).

Por conseguinte, se lemos juntos a promessa do profeta Isaías e o seu cumprimento no Evangelho de Mateus, no grande contexto de toda a história, parece evidente que o que nos é dito e que no presépio procuramos reproduzir, não é um sonho, nem sequer um inútil jogo de sensações e de emoções, desprovidas de vigor e de realidade, mas é a Verdade que se irradia no mundo, mesmo que Herodes pareça ser sempre mais forte e aquele Menino pareça poder ser incluído entre aqueles que não têm importância, ou até espezinhado. Mas somente naquele Menino se manifesta a força de Deus, que reúne os homens de todos os séculos, para que sob o seu senhorio percorram o caminho do amor, que transfigura o mundo. Todavia, embora os poucos de Belém se tenham tornado muitos, os crentes em Jesus Cristo parecem ser sempre poucos. Muitos viram a estrela, mas só poucos compreenderam a sua mensagem. Os estudiosos da Escritura do tempo de Jesus conheciam perfeitamente a palavra de Deus. Eram capazes de dizer sem qualquer dificuldade o que se podia encontrar nela a respeito do lugar onde o Messias teria nascido mas, como Santo Agostinho diz: "Aconteceu com eles como com as pedras miliárias (que indicam o caminho): enquanto davam indicações aos romeiros a caminho, eles permaneciam inertes e imóveis" (Sermo 199. In Epiphania Domini, 1, 2).

Então, podemos perguntar-nos: qual é a razão pela qual alguns vêem e encontram, e outros não? O que abre os olhos e o coração? O que falta àqueles que permanecem indiferentes, aos que indicam o caminho, mas não se movem? Podemos responder: a demasiada segurança em si mesmos, a pretensão de conhecer perfeitamente a realidade, a presunção de já ter formulado um juízo definitivo sobre as coisas tornam os seus corações fechados e insensíveis à novidade de Deus. Sentem-se seguros da idéia do mundo que formularam para si mesmos e não se deixam abalar no seu íntimo pela aventura de um Deus que deseja encontrá-los. Depositam a sua confiança mais em si próprios do que nele e não julgam possível que Deus seja tão grande a ponto de se poder tornar pequeno, de se poder aproximar verdadeiramente de nós.

No final, o que falta é a humildade autêntica, que sabe submeter-se ao que é maior, mas também a coragem genuína, que leva a crer naquilo que é verdadeiramente grande, mesmo que se manifeste num Menino inerme. Falta a capacidade evangélica de ser criança no coração, de se admirar e de sair de si mesmo para seguir o caminho indicado pela estrela, o caminho de Deus. Porém, o Senhor tem o poder de nos tornar capazes de ver e de nos salvarmos. Então, queremos pedir-lhe que nos dê um coração sábio e inocente, que nos permita ver a estrela da sua misericórdia e seguir o seu caminho, para O encontrar e ser inundados pela grande luz e pela verdadeira alegria que Ele trouxe a este mundo. Amém!

Papa Bento XVI
Homilia da Solenidade da Epifania
Basílica Vaticana, 06 de Janeiro 2010

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Papa Bento XVI: todos podem encontrar Jesus



Bento XVI: todos podem encontrar Jesus

O Papa dedica a catequese de hoje ao monge beneditino Ruperto de Deutz

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Todos nós podemos “encontrar o Senhor Jesus, que incessantemente acompanha nosso caminho, faz-se presente no pão eucarístico e em sua Palavra para a nossa salvação”, afirmou hoje Bento XVI, por ocasião da Audiência Geral dedicada ao monge beneditino do século XII Ruperto de Deutz.

Durante o encontro realizado na Sala Paulo VI, o pontífice recordou os ensinamentos mais significativos deste importante teólogo, que soube “conjugar o estudo racional dos mistérios da fé com a oração e a contemplação, considerada como o cume de todo conhecimento de Deus”.

Em uma época “marcada pelos enfrentamentos entre o papado e o império, por causa da chamada ‘querela das investiduras’”, Ruperto soube escolher o caminho do exílio para poder permanecer fiel ao pontífice, mostrando que, “quando surgem controversas na Igreja, a referência ao ministério petrino garante a fidelidade à sã doutrina e dá serenidade e liberdade interior”.

Ruperto, segundo recordou o Papa, interveio em várias importantes discussões teológicas da sua época, como “decidido defensor do realismo eucarístico” contra os que propugnavam “interpretação reducionista da presença de Cristo no sacramento da Eucaristia”.

Este é um ensinamento de grande atualidade para a nossa época, explica o Papa, na qual “existe o perigo de redimensionar o realismo eucarístico, isto é, considerar a Eucaristia quase como somente um rito de comunhão, de socialização, esquecendo muito facilmente que na Eucaristia realmente está presente Cristo ressuscitado – com seu corpo ressuscitado –, que se coloca em nossas mãos para fazer-nos sair de nós mesmos, incorporar-nos ao seu corpo imortal e guiar-nos assim à vida nova”.

Outra controversa da qual o monge de Deutz participou estava relacionada à “conciliação da bondade e onipotência de Deus com a existência do mal”.

O abade reagiu contra a postura assumida pelos professores da escola teológica de Laon, que afirmavam que “Deus permite o mal sem aprová-lo e, portanto, sem querê-lo”.

Ruperto, explicou o Papa, “parte da bondade de Deus, da verdade de que Deus é sumamente bom e não pode deixar de querer o bem. Assim, identifica a origem do mal no próprio homem e no uso equivocado da liberdade humana”.

“Quando Ruperto enfrenta este tema, escreve páginas cheias de inspiração religiosa para louvar a misericórdia infinita do Pai, a paciência e a benevolência de Deus pelo homem pecador.”
Como outros teólogos do Medievo, também Ruperto se perguntava por que o Verbo de Deus, o Filho de Deus, se fez homem, afirmou o Papa, acrescentando que a sua é “uma visão cristocêntrica da história da salvação”.

Ruperto “sustenta a postura de que a Encarnação, acontecimento central de toda a história, havia sido prevista desde a eternidade, ainda independentemente do pecado do homem, para que toda a criação pudesse louvar Deus Pai e amá-lo como uma única família reunida ao redor de Cristo, o Filho de Deus”.

Ele “vê então, na mulher grávida do Apocalipse, toda a história da humanidade, que está orientada a Cristo, assim como a concepção está orientada ao parto, uma perspectiva que foi desenvolvida por outros pensadores e valorizada também pela teologia contemporânea, a qual afirma que toda a história do homem e da humanidade é concepção orientada ao parto de Cristo”.


Papa Bento XVI
Audiência Geral
09 de dezembro de 2009


Catequese: Doutrina eucarística, sabedoria milenar



Doutrina eucarística, sabedoria milenar

Intervenção do Papa na Audiência Geral de hoje

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Oferecemos, a seguir, a catequese do Papa Bento XVI durante a Audiência Geral de hoje, com os peregrinos reunidos na Sala Paulo VI.

***

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje conheceremos outro monge beneditino do século XII. Seu nome é Ruperto de Deutz, uma cidade próxima de Colônia, sede de um famoso mosteiro. O próprio Ruperto fala da sua vida em uma das suas obras mais importantes, intitulada “A glória e a honra do Filho do Homem”, que é um comentário parcial ao Evangelho de Mateus.

Ainda sendo criança, foi acolhido como “oblato” no mosteiro beneditino de São Lourenço, em Liège, segundo o costume da época de confiar um dos filhos à educação dos monges, com a intenção de oferecer um dom a Deus. Ruperto sempre amou a vida monástica. Aprendeu logo a língua latina para estudar a Bíblia e para aproveitar as celebrações litúrgicas. Distinguiu-se por sua integríssima retidão moral e pelo forte apego à Sé de Pedro.

Sua época esteve marcada pelos enfrentamentos entre o papado e o império, por causa da chamada “querela das investiduras”, com a qual – como indiquei em outras catequeses – o papado queria impedir que a nomeação de bispos e o exercício da sua jurisdição dependessem das autoridades civis, que estavam guiadas antes de mais nada por motivações políticas e econômicas, e não certamente pastorais.

O bispo de Liège, Otberto, resistia às diretrizes do Papa e mandou Berengário, abade do mosteiro de São Lourenço, ao exílio, precisamente por sua fidelidade ao pontífice. Neste mosteiro estava Ruperto, que não hesitou em seguir seu abade ao exílio e, somente quando o bispo Otberto voltou a estar em comunhão com o Papa, ele regressou a Liège e aceitou converter-se em sacerdote. Até aquele momento, de fato, ele havia evitado receber a ordenação de um bispo em dissensão com o Papa.

Ruperto nos ensina que, quando surgem controversas na Igreja, a referência ao ministério petrino garante a fidelidade à sã doutrina e dá serenidade e liberdade interior. Após a disputa com Otberto, teve de abandonar seu mosteiro outras duas vezes. Em 1116, os adversários queriam inclusive processá-lo. Ainda que tenha sido absolvido de toda acusação, Ruperto preferiu dirigir-se por um tempo a Siegburg, mas, dado que as polêmicas não haviam cessado quando voltou ao mosteiro de Liège, decidiu estabelecer-se definitivamente na Alemanha. Nomeado abade de Deutz em 1120, permaneceu lá até 1129, ano da sua morte. Afastou-se de lá somente para uma peregrinação a Roma, em 1124.

Escritor fecundo, Ruperto deixou numerosas obras, ainda hoje de grande interesse, também porque participou de várias importantes discussões teológicas da sua época. Por exemplo, interveio com determinação na controversa eucarística, que em 1077 havia levado à condenação de Berengário de Tours. Este havia dado uma interpretação reducionista da presença de Cristo no sacramento da Eucaristia, definindo-a como somente simbólica. Na linguagem da Igreja, não havia entrado ainda o termo “transubstanciação”, mas Ruperto, utilizando às vezes expressões audazes, tornou-se um defensor decidido do realismo eucarístico e, sobretudo na obra intitulada “De divinis officis” (Os ofícios divinos), afirmou com decisão a continuidade entre o Corpo do Verbo encarnado de Cristo e o presente nas espécies eucarísticas do pão e do vinho.

Queridos irmãos e irmãs: parece-me que neste ponto devemos também pensar na nossa época; também hoje existe o perigo de redimensionar o realismo eucarístico, isto é, considerar a Eucaristia quase como somente um rito de comunhão, de socialização, esquecendo muito facilmente que na Eucaristia realmente está presente Cristo ressuscitado – com seu corpo ressuscitado –, que se coloca em nossas mãos para fazer-nos sair de nós mesmos, incorporar-nos ao seu corpo imortal e guiar-nos assim à vida nova. Este grande mistério de que o Senhor está presente em toda a sua realidade nas espécies eucarísticas é um mistério que temos de adorar e amar sempre de novo! Eu gostaria de citar aqui as palavras do Catecismo da Igreja Católica, que trazem em si o fruto da meditação da fé e da reflexão teológica de dois mil anos: “O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. No santíssimo sacramento da Eucaristia estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo completo, Deus e homem” (cf. CIC 1374). Também Ruperto contribuiu, com suas reflexões, para esta precisa formulação.

Outra controversa na qual o abade de Deutz se viu envolvido tem a ver com o tema da conciliação da bondade e onipotência de Deus com a existência do mal. Se Deus é onipotente e bom, como se explica a realidade do mal? Ruperto reagiu contra a postura assumida pelos professores da escola teológica de Laon, que, com uma série de raciocínios filosóficos, distinguiam na vontade de Deus o “aprovar” e o “permitir”, concluindo que Deus permite o mal sem aprová-lo e, portanto, sem querê-lo. Ruperto, por outro lado, renuncia ao uso da filosofia, que considera inadequada frente a um problema tão grande, e permanece simplesmente fiel à narração bíblica. Parte da bondade de Deus, da verdade de que Deus é sumamente bom e não pode deixar de querer o bem. Assim, identifica a origem do mal no próprio homem e no uso equivocado da liberdade humana. Quando Ruperto enfrenta este tema, escreve páginas cheias de inspiração religiosa para louvar a misericórdia infinita do Pai, a paciência e a benevolência de Deus pelo homem pecador.

Como outros teólogos do Medievo, também Ruperto se perguntava: por que o Verbo de Deus, o Filho de Deus, se fez homem? Alguns respondiam explicando a encarnação do Verbo com a urgência de reparar o pecado do homem. Ruperto, no entanto, com uma visão cristocêntrica da história da salvação, amplia a perspectiva e, em uma obra sua titulada “A glorificação da Trindade”, sustenta a postura de que a Encarnação, acontecimento central de toda a história, havia sido prevista desde a eternidade, ainda independentemente do pecado do homem, para que toda a criação pudesse louvar Deus Pai e amá-lo como uma única família reunida ao redor de Cristo, o Filho de Deus. Ele vê então, na mulher grávida do Apocalipse, toda a história da humanidade, que está orientada a Cristo, assim como a concepção está orientada ao parto, uma perspectiva que foi desenvolvida por outros pensadores e valorizada também pela teologia contemporânea, a qual afirma que toda a história do homem e da humanidade é concepção orientada ao parto de Cristo.

Cristo está sempre no centro das explicações exegéticas proporcionadas por Ruperto em seus comentários aos livros da Bíblia, aos que se dedicou com grande diligência e paixão. Encontra, assim, uma unidade admirável em todos os acontecimentos da história da salvação, desde a criação até a consumação final dos tempos: “Toda a Escritura é um só livro, que tende ao mesmo fim [o Verbo divino]; que vem de um só Deus e que foi escrito por um só Espírito” (De glorificatione Trinitatis et processione Sancti Spiritus I,V, PL 169, 18).

Na interpretação da Bíblia, Ruperto não se limita a repetir o ensinamento dos Padres, e sim mostra sua originalidade. Ele, por exemplo, é o primeiro escritor que identificou a esposa do Cântico dos Cânticos como Maria Santíssima. Assim, seu comentário a este livro da Escritura se revela como uma espécie de summa mariológica, na qual se apresentam os privilégios e as excelentes virtudes de Maria. Em uma das passagens mais inspiradas do seu comentário, Ruperto escreve: “Ó prediletíssima entre as prediletas, Virgem das virgens, o que teu Filho predileto louva em ti, que exalta o coro inteiro dos anjos? Louva-se a simplicidade, a pureza, a inocência, a doutrina, o pudor, a humildade, a integridade da morte e da carne, isto é, a virgindade incorrupta” (In Canticum Canticorum 4,1-6, CCL 26, pp. 69-70). A interpretação mariana do Cântico dos Cânticos de Ruperto é um feliz exemplo da sintonia entre liturgia e teologia. De fato, várias passagens deste livro bíblico já eram usadas nas celebrações litúrgicas das festas marianas.

Ruperto, além disso, procura inserir sua doutrina mariológica na eclesiológica. Em outras palavras, ele vê em Maria Santíssima a parte mais santa da Igreja inteira. Daqui que meu venerado predecessor, Paulo VI, no discurso de clausura da 3ª sessão do Concílio Vaticano II, proclamando solenemente Maria como Mãe da Igreja, tenha citado precisamente uma proposição tomada das obras de Ruperto, que define Maria como portio maxima, portio optima – a parte mais excelsa, a melhor parte da Igreja (cf. In Apocalypsem 1.7, PL 169,1043).

Queridos amigos, a partir destas rápidas pinceladas, percebemos que Ruperto foi um teólogo fervoroso, dotado de grande profundidade. Como todos os representantes da teologia monástica, ele soube conjugar o estudo racional dos mistérios da fé com a oração e com a contemplação, considerada como o cume de todo conhecimento de Deus. Ele mesmo fala uma vez das suas experiências místicas, como quando confia a inefável alegria de ter percebido a presença do Senhor: “Nesse breve momento, experimentei quão verdadeiro é isso que Ele mesmo diz: ‘Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração’” (De gloria et honore Filii hominis. Super Matthaeum 12, PL 168, 1601). Também nós podemos, cada um da sua maneira, encontrar o Senhor Jesus, que incessantemente acompanha nosso caminho, faz-se presente no pão eucarístico e em sua Palavra para a nossa salvação.

Papa Bento XVI
Audiência Geral
09 de dezembro de 2009


Solenidade da Imaculada Conceição: dom imenso ter por mãe Maria Imaculada, diz Papa Bento XVI



Papa: dom imenso ter por mãe Maria Imaculada

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 8 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Publicamos o discurso que Bento XVI dirigiu ao meio-dia de hoje, ao rezar o Ângelus com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, na solenidade da Imaculada Conceição.

* * *

Caros irmãos e irmãs!

No dia 8 de dezembro celebramos uma das mais belas festas da Beata Virgem Maria: a solenidade da sua Imaculada Conceição. Mas o que significa dizer que Maria é “Imaculada”? E que quer dizer para nós este título? Primeiramente, façamos referência aos textos bíblicos da liturgia de hoje, especialmente ao grande “afresco” que é o terceiro capítulo do Livro do Gênesis, e à narrativa da Anunciação do Evangelho de Lucas. Após o pecado original, Deus se dirige à serpente, que representa Satanás, a amaldiçoa e acrescenta uma promessa: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gen 3, 15). É o anúncio de uma virada: Satanás no início da criação parece levar a melhor, mas virá um filho de mulher que lhe esmagará a cabeça. Assim, mediante a posteridade da mulher, o próprio Deus vencerá. Essa Mulher é a Virgem Maria, da qual nasceu Jesus Cristo que, com seu sacrifício, derrotou de uma vez por todas o antigo tentador. É por isso que, em tantas pinturas e estátuas da Imaculada, Ela é representada esmagando uma serpente com o pé.

O Evangelista Lucas, ao contrário, mostra-nos a Virgem Maria que recebe o anúncio do mensageiro celeste (cfr Lc 1, 26-38). Ela aparece como a humilde e autêntica filha de Israel, verdadeira Sião na qual Deus quer fazer sua morada. É a muda da qual deve nascer o Messias, o Rei justo e misericordioso. Na simplicidade da casa de Nazaré está o “restante” puro de Israel, do qual Deus quer fazer renascer seu povo, como uma nova árvore que estenderá seus ramos por todo o mundo, oferecendo a todos os homens bons frutos de salvação. Diferentemente de Adão e Eva, Maria se mantém obediente à vontade do Senhor, pronunciando seu "sim" com tudo o que tem e se colocando plenamente à disposição do projeto divino. É a nova Eva, verdadeira mãe de todos os viventes, de todos os que pela fé em Cristo recebem a vida eterna.

Caros amigos, que dom imenso é ter por mãe Maria Imaculada! Toda vez que experimentamos nossa fragilidade e a sugestão do mal, podemos nos voltar a Ela, e nosso coração recebe luz e conforto. Também nas provações da vida, nas tempestades que fazem vacilar a fé e a esperança, pensemos que somos seus filhos e que as raízes de nossa existência afundam na infinita graça de Deus. A própria Igreja, ainda que exposta às influências negativas do mundo, encontra sempre Nela a Estrela para orientar-se e seguir o caminho indicado por Cristo. Maria é de fato a Mãe da Igreja, como proclamou solenemente o Papa Paulo VI e o Concílio Vaticano II. Enquanto damos graças a Deus por este sinal estupendo de sua bondade, confiemos à Virgem Imaculada cada um de nós, nossas famílias e nossas comunidades, toda a Igreja e o Mundo inteiro. É o que eu mesmo farei esta tarde, segundo a tradição, aos pés do monumento a Ela dedicado na Praça de Espanha.


Papa Bento XVI
Angelus, 08 de dezembro de 2009
Solenidade da Imaculada Conceição

Homenagem do Papa à Imaculada Conceição




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38

ATO DE VENERAÇÃO À IMACULADA NA PRAÇA DE ESPANHA

Discurso do Papa à Imaculada Conceição


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 8 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Publicamos as palavras que Bento XVI pronunciou na homenagem que ofereceu na tarde dessa terça-feira, Solenidade da Imaculada Conceição, perante a imagem da Virgem Maria que se encontra na Praça de Espanha, no centro de Roma.

* * *

Queridos irmãos e irmãs,

No coração das cidades cristãs, Maria constitui uma presença doce e tranquilizadora. Com seu estilo discreto, dá a todos a paz e a esperança em momentos alegres e tristes da existência. Nas igrejas, nas capelas, nas paredes dos edifícios: um quadro, um mosaico, uma estátua recorda a presença da Mãe que vela constantemente por seus filhos. Também aqui, na Praça de Espanha, Maria está colocada no alto, como que velando por Roma.

Que diz Maria à cidade? Que recorda a todos com sua presença? Recorda que “onde se multiplicou o pecado, transbordou a graça” (Romanos 5, 20), como escreve o apóstolo Paulo. Ela é a Mãe Imaculada que repete também aos homens de nosso tempo: não tenhais medo, Jesus venceu o mal; venceu seu domínio desde a raiz. Quanta necessidade temos desta bela notícia! Todo dia, de fato, através dos jornais, da televisão, do rádio, o mal é narrado, repetido, amplificado, acostumando-nos às coisas mais horríveis, fazendo-nos insensíveis, em certo sentido, intoxicando-nos, pois o negativo não se digere plenamente e dia após dia se acumula. O coração endurece e os pensamentos se tornam sombrios. Por esse motivo, a cidade tem necessidade de Maria, que com sua presença nos fala de Deus, recorda-nos a vitória da Graça sobre o pecado, e nos leva a ter esperança, inclusive nas situações humanamente mais difíceis.

Na cidade vivem –ou sobrevivem– pessoas invisíveis, que de vez em quando saltam às primeiras páginas ou às telas da televisão, e são aproveitadas até o fim, enquanto a notícia e sua imagem chamam a atenção. É um mecanismo perverso, perante o qual infelizmente é difícil opor resistência. A cidade primeiro escondo e logo expõe ao público. Sem piedade ou com falsa piedade. No entanto, em todo homem se dá o desejo de ser acolhido como pessoa e considerado como uma realidade sagrada, pois cada história humana é uma história sagrada e exige o maior respeito.

A cidade, queridos irmãos e irmãs, somos todos nós! Cada um contribui para a sua vida e seu clima moral, para o bem ou para o mal. No coração de cada um de nós passa a fronteira entre o bem e o mal, e nenhum de nós deve sentir-se com o direito de julgar os demais, mas cada um deve sentir o dever de melhorar a si mesmo. Os meios de comunicação tendem a fazer que sempre nos sintamos “espectadores”, como se o mal só afetasse os demais, certos eventos que a nós não poderia nunca acontecer. No entanto, todos somos “atores” e, tanto no mal como no bem, nosso comportamento tem uma influência sobre os demais.

Com frequência, nos queixamos da contaminação do ar, que em certos lugares da cidade é irrespirável. É verdade: requer-se o compromisso de todos para tornar a cidade mais limpa. E, no entanto, há outra contaminação, menos perceptível pelos sentidos, mas igualmente perigosa. É a contaminação do espírito, que faz que nossos rostos sorriam menos, sejam mais tristes, que nos leva a não nos saudar, a não nos olhar nos olhos... A cidade está cheia de rostos, mas infelizmente as dinâmicas coletivas podem nos fazer perder a percepção de sua profundidade. Tudo o vemos superficialmente. As pessoas convertem-se em corpos e estes corpos perdem a alma, convertem-se em coisas, objetos sem rostos, intercambiáveis, objetos de consumo.

Maria Imaculada nos ajuda a redescobrir e defender a profundidade das pessoas, pois nela se dá uma perfeita transparência da alma no corpo. É a pureza em pessoa, no sentido de que espírito, alma e corpo são nela plenamente coerentes entre si e com a vontade de Deus. A Virgem nos ensina a nos abrir à ação de Deus para ver os demais como Ele os vê: a partir do coração. E ao vê-los com misericórdia, com amor, com ternura infinita, especialmente os mais sós, depreciados, os que sofrem abusos. “Onde se multiplicou o pecado, transbordou a graça”.

Quero render homenagem publicamente a todos aqueles que, em silêncio, sem palavras, mas com fatos, esforçam-se para praticar esta lei evangélica do amor, que leva adiante o mundo. São tantos, inclusive aqui, em Roma, e poucas vezes tornam-se notícia. Homens e mulheres de todas as idades, que compreenderam que de nada serve condenar, queixa-se, jogar a culpa, mas que é melhor responder ao mal com o bem. Isso é o que muda a realidade; ou melhor dito, muda as pessoas, por conseguinte, melhora a sociedade.

Queridos amigos romanos e todos os que vivem nesta cidade! Enquanto estamos ocupados com as atividades cotidianas, escutemos a voz de Maria. Escutemos seu apelo silencioso, mas urgente. Ela nos diz a cada um: que onde se multiplicou o pecado possa transbordar a graça, a partir precisamente de teu coração e de tua vida! E a cidade será mais bela, mais cristã, mais humana.

Obrigado, Mãe Santa, por esta mensagem de esperança. Obrigado por tua silenciosa mas eloquente presença no coração de nossa cidade. Virgem Imaculada, Salus Populi Romani, orai por nós!

Papa Bento XVI
Solenidade da Imaculada Conceição
08 de dezembro de 2009
Praça de Espanha, Roma


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Imaculada Conceição: Maria, estrela que aponta para a verdadeira felicidade




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38


Maria, estrela que aponta para a verdadeira felicidade


Queridos irmãos e irmãs:

No caminho do Advento, brilha a estrela de Maria Imaculada, «sinal de esperança e consolo» (Concílio Vaticano II, Constituição Lumen Gentium, 68). Para chegar a Jesus, luz verdadeira, sol que dissipou todas as trevas da história, precisamos ter perto de nós pessoas que sejam um reflexo da luz de Cristo e que dessa forma iluminem o caminho que devemos percorrer. E que pessoa mais luminosa que Maria? Quem melhor que ela pode ser para nós a estrela da esperança, a aurora que anunciou o dia da salvação? (cf. Encíclica Spe Salvi, 49). Por este motivo, a liturgia nos convida a celebrar hoje, ao aproximar-se o Natal, a festa solene da Imaculada Conceição de Maria: o mistério da graça de Deus envolveu, desde o primeiro instante de sua existência, a criatura destinada a converter-se na Mãe do redentor, preservando-a do contágio do pecado original. Ao contemplá-la, reconhecemos a altura e a beleza do projeto de Deus para cada homem: chegar a ser santos e imaculados no amor (cf. Ef 1, 4), à imagem do nosso Criador.

Que grande dom é ter Maria Imaculada como mãe! Uma mãe resplandecente de beleza, transparente ao amor de Deus. Penso nos jovens de hoje, que cresceram em um ambiente saturado de mensagens que propõem falsos modelos de felicidade. Estes garotos e garotas correm o risco de perder a esperança, pois freqüentemente parecem órfãos do verdadeiro amor, que confere significado e alegria à vida. Este foi um tema muito importante para meu querido predecessor João Paulo II, que tantas vezes propôs Maria à juventude do nosso tempo, como «Mãe do belo amor».

Muitas experiências nos mostram lamentavelmente que os adolescentes, os jovens e até as crianças são vítimas fáceis da corrupção do amor, enganados por adultos sem escrúpulos que, mentindo para si mesmos e para eles, atraem-nos aos becos sem saída do consumismo: inclusive as realidades mais sagradas, como o corpo humano, templo de Deus do amor e da vida, tornam-se dessa forma objetos de consumo. E isso cada vez mais rápido, já desde a pré-adolescência. Que tristeza é ver os meninos e meninas perderem a maravilha, o encanto dos sentimentos mais belos, o valor do respeito ao corpo, manifestações da pessoa e do seu insondável mistério!

Maria, a Imaculada, nos recorda tudo isso; nós a contemplamos em toda a sua beleza e santidade. Na cruz, Jesus a confiou a João e a todos os discípulos (cf. Jo 19, 27), e desde então ela se converteu para toda a humanidade em Mãe, Mãe da esperança. A ela dirigimos com fé a nossa oração, enquanto visitamos espiritualmente Lourdes, onde precisamente neste dia começa um ano jubilar especial, por ocasião do 150º aniversário das suas aparições na gruta de Massabielle. Maria Imaculada, «Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos em nosso caminho» (Encíclica Spe Salvi, 50).


Papa Bento XVI
Angelus, 08 de Dezembro de 2007

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ADVENTO: BENTO XVI ABRE TEMPO DO ADVENTO COM HOMILIA




BENTO XVI ABRE TEMPO DO ADVENTO COM CELEBRAÇÃO DAS VÉSPERAS


Cidade do Vaticano, 28 nov (RV) - "Se Jesus está presente, não existe mais nenhum tempo desprovido de sentido e vazio. Se Ele está presente podemos continuar esperando mesmo quando os outros não mais puderem assegurar-nos nenhum apoio, mesmo quando o presente se torna enfadonho": foi o que disse o Papa na Homilia das Primeiras Vésperas do I Domingo do Advento, por ele presididas no final desta tarde na Basílica Vaticana.


Caros irmãos e irmãs,

Com esta celebração vespertina entramos no tempo litúrgico do Advento. Na leitura bíblica que acabamos de ouvir, extraída da 1ª Carta aos Tessalonicenses, o apóstolo Paulo nos convida a preparar a "vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo" (5,23) guardando-nos irrepreensíveis, com graça de Deus. Paulo usa exatamente a palavra "vinda", em latim adventus, da qual provém o termo Advento.

Reflitamos brevemente sobre o significado desta palavra, que pode ser traduzida como "presença", "chegada", "vinda". Na linguagem do mundo antigo era um termo técnico, utilizado para indicar a chegada de um funcionário, a visita do rei ou do imperador em uma província. Mas, podia também indicar a vinda da divindade, que sai de seu escondimento para se manifestar com poder, ou que é celebrada por sua presença no culto. Os cristãos adotaram a palavra "advento" para expressar a sua relação com Jesus Cristo: Jesus é o Rei, que entra nesta pobre "província" denominada terra para visitar a todos; na festa de seu advento faz participar todos os que n'Ele crêem, todos os que crêem em sua presença em meio à assembléia litúrgica. Com a palavra adventus, se pretendia substancialmente dizer: Deus está aqui, ele não se retirou do mundo, não nos deixou a sós. Embora não possamos vê-lo nem tocá-lo como acontece com as realidades sensíveis, Ele está aqui e vem visitar-nos em diversos modos.

O significado da expressão "advento" compreende então também o de visitatio, que quer dizer simples e diretamente "visita"; neste caso, trata-se de uma visita divina: Ele entra em minha vida e quer se dirigir a mim. Todos experimentamos na existência quotidiana, o fato de termos pouco tempo para o Senhor e pouco tempo também para nós. Acabamos deixando-nos absorver pelo "fazer". Não seria talvez apropriado dizer que somos muitas vezes tomados pela atividade, que a sociedade com seus múltiplos interesses monopoliza a nossa atenção? Não seria talvez apropriado afirmar que se dedica muito tempo à diversão e ao lazer de diferentes tipos? Às vezes as coisas nos "arrastam". O Advento, este tempo litúrgico forte que estamos iniciando, nos convida a parar em silêncio para compreender uma presença. É um convite a entender que cada evento do dia são sinais que Deus dirige a nós, prova da atenção que Ele tem por cada um de nós. Quão freqüentemente Deus nos faz perceber algo de seu amor! Manter, por assim dizer, um "diário interior" deste amor seria uma bonita e salutar tarefa para a nossa vida! O Advento nos convida e nos impulsiona à contemplação do Senhor presente. A certeza de sua presença não deveria nos ajudar a ver o mundo com olhos diferentes? Não deveria nos ajudar a considerar toda a nossa existência como "visita", como um modo no qual Ele pode vir a nós e nos tornar mais próximos, em cada situação?

Outro elemento fundamental do Advento é a espera, espera que ao mesmo tempo esperança. O Advento nos impele a compreender o sentido do tempo e da história como "kairós", como ocasião favorável à nossa salvação. Jesus mostrou esta realidade misteriosa em muitas parábolas: no relato dos servos convidados a esperar o retorno do patrão; na parábola das virgens que esperam o esposo; ou ainda nos relatos sobre a semeadura e colheita. O homem, em sua vida, está em constante espera: quando é criança, quer crescer; quando adulto busca a realização e o sucesso; com o passar dos anos, aspira ao merecido repouso. Mas chega o tempo no qual ele descobre que esperou pouco se, independente da profissão ou do status social, não lhe resta mais nada para esperar. A esperança marca o caminho da humanidade, mas para os cristãos esta é animada por uma certeza: o Senhor está presente no correr da nossa vida, nos acompanha e um dia enxugará também as nossas lágrimas. Um dia, não distante, tudo encontrará seu cumprimento no Reino de Deus, Reino de justiça e de paz.

Mas existem maneiras muito diferentes de esperar. Se o tempo não é preenchido por um presente dotado de sentido, a espera pode tornar-se insuportável; se espera-se algo, mas no momento não há nada, se o presente permanece vazio, cada segundo que passa parece infinitamente longo, e a espera se transforma num fardo muito pesado, porque o futuro permanece totalmente incerto. Quando, porém, o tempo é dotado de sentido, e em cada instante percebemos algo de específico e de válido, então a alegria da espera torna o presente mais precioso. Caros irmãos e irmãs, vivamos intensamente o presente onde já nos alcançam os dons do Senhor, vivamo-lo com nosso olhar voltado para o futuro, um futuro cheio de esperança. O Advento cristão se torna assim ocasião para reavivar em nós o verdadeiro sentido da espera, retornando ao coração da nossa fé, que é o mistério de Cristo, o Messias esperado ao longo de séculos e nascido na pobreza de Belém. Vindo em meio a nós, nos encontrou e continua a nos oferecer o dom de seu amor e de sua salvação. Presente entre nós, nos fala em diversos modos: na Sagrada Escritura, no ano litúrgico, nos santos, nos eventos da vida cotidiana, em toda a criação, que muda de aspecto conforme a condição de que Ele lhe esteja por detrás ou que seja ofuscada pela névoa de uma origem incerta e de futuro incerto. Por sua vez, nós podemos falar com Ele, apresentar a ele os sofrimentos que nos afligem, a impaciência, as perguntas que brotam no coração. Acreditemos que Ele sempre nos ouve! E se Jesus está presente, não existe mais nenhum momento vazio e sem sentido. Se Ele está presente, podemos prosseguir esperando também quando os outros não podem nos assegurar ajuda; também quando o presente se torna cansativo.

Caros amigos, o Advento é o tempo da presença e da espera do eterno. Exatamente por este motivo, em particular, é um tempo de alegria, de alegria interiorizada, que nenhum sofrimento pode cancelar. A alegria pelo fato de que Deus se fez criança. Esta alegria, em modo invisível presente entre nós, nos encoraja a caminhar confiantes. Modelo e apoio deste íntimo gáudio é a Virgem Maria, através da qual nos foi dado o Menino Jesus. Que Ela obtenha para nós, como fiel discípula de seu Filho, a graça de viver este tempo litúrgico vigilantes e laboriosos na espera. Amém!


Papa Bento XVI
Homilia das Vésperas do I Domingo do Advento
28 de novembro de 2009

BRUNO FORTE PARA O ADVENTO: Padres por amor – Mensagem para o Ano Sacerdotal




Padres por amor

Por D. Bruno Forte


Mensagem para o Ano Sacerdotal 2009-2010


No início deste ano sacerdotal quero fazer contigo, irmão no sacerdócio, a pergunta que está na base da nossa identidade e da nossa missão: por que somos padres? Quem fez com que déssemos toda a nossa vida por este ministério do Evangelho da reconciliação, da eucaristia e da caridade? A resposta só pode ser uma: Jesus Cristo. Somos padres porque Ele nos quis tais, nos chamou e assim nos amou, e ainda nos quer assim e nos ama sempre, Ele que é fiel no amor. O sentido da nossa vida, a razão verdadeira da nossa vocação não está em alguma coisa, talvez até a coisa mais bela do mundo, mas em Alguém: este Alguém é Ele, o Senhor Jesus. Somos padres porque um dia Ele nos alcançou e nos chamou (cada um de nós sabe como: na palavra de uma testemunha, num gesto de caridade que tocou nosso coração, no silêncio de um caminho de escuta e oração, até na dor de sentir que a vida nos parecia como que vazia sem Ele).

A Ele que chamava dissemos sim: e desde então se acendeu em nós uma chama de amor, que com a sua graça não mais se apagou. Uma chama que nos faz arder por Ele, desejá-Lo, querer o que Ele quer para nós. Creio não exagerar, nem dizer palavras grandiloquentes. Na realidade, não teríamos podido ser padres e sê-lo na fidelidade, apesar de tudo, se Ele não tivesse no-lo dado a viver em nós, a enamorar-nos Dele sempre de novo. É este amor que nos impulsionou a todas as obras que fizemos pelos outros: desde a simples acolhida de coração à escuta perseverante e paciente, desde esforço de transmitir a todos o sentido e a beleza da vida vivida para Deus às obras de caridade e ao empenho pela justiça, co-dividindo especialmente a ânsia do pobre e procurando ser a voz de quem não tem voz. Certamente, parece-nos sempre pouco o que fizemos: sentimos o peso dos nossos erros, cometidos muitas vezes de boa fé; dói em nós a tristeza dos nossos pecados; nos turbam as nossas omissões. Se algo de verdadeiro e de belo fizemos, foi porque Jesus nos concedeu fazê-lo: é Ele que se deu a nós e nos tornou capazes de gestos de gratuidade que por nós mesmos não teríamos podido sequer pensar ou sonhar.

Esta premissa – testemunho da nossa vida de chamados por Cristo - explica porque sinto a necessidade a cada dia de escutar a Palavra do Amado e de celebrar a Eucaristia e porque creio que estes apontamentos são tão importantes para nós: não se trata de uma obrigação, mas de uma necessidade, não só emotiva (às vezes, pelo contrário, a emotividade parece à parte, totalmente), mas profunda, iniludível. É a necessidade de preencher a cada dia a nossa vida com Ele: é Jesus que nos disse que para cada dia basta o seu afã (cf. Mateus 6,34), isto é, que cada dia é longo aquele tanto que basta para sustentar a luta para conservar a fé. A cada dia nasce o sol para nós e a cada dia o nosso coração sedento de amor tem necessidade que o sol do Amado o alcance e o esquente de novo: se Ele é a nossa vida, o sentido e a sua beleza, outra coisa não podemos fazer que encontrá-Lo ali onde Ele vivo e verdadeiro fala à Igreja e se oferece por nós. Que dirias de um enamorado que – podendo – não sentisse a necessidade de encontrar até a cada dia a pessoa amada, de escutar a sua voz? Se isto vale para o amor humano, que geralmente é tão frágil e volúvel, como poderia não valer para o amor que não desilude e não trai, o amor que faz viver no tempo e para a eternidade, o amor de Deus em Cristo Jesus, nossa vida?

Eis onde nasce, pois, a necessidade de encontrá-lo a cada dia, sempre de novo: onde podemos satisfazer esta exigência senão ali onde Ele nos fala e nos garante o dom da sua presença? “O amigo do esposo exulta de alegria à voz do esposo” (João 3,29) – “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna” (5,24). “Este é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim – Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22,19-20). Sim, a cada dia temos necessidade de Ti, Jesus: e se no domingo Te encontramos na festa do dia primeiro e último, o dia da Tua ressurreição e da vida nova que Tu dás à Igreja e ao mundo, a graça de poder celebrar a cada dia o memorial da Tua páscoa, na escuta da Tua Palavra, enche de alegria e de paz o nosso coração de sacerdotes. Verdadeiramente, não estamos sós no caminho do nosso ministério: és Tu que nos visitas sempre de novo com a Tua Palavra de vida; és Tu que nos visitas nos irmãos e nas irmãs que colocas na nossa estrada; és Tu que no pobre pedes a nós amor e em qualquer um que tenha necessidade do amor nos chamas a dar; és Tu – no vértice de tudo isso e como fonte viva deste rio de vida – que Te fazes presente na eucaristia, para que nos nutramos de Ti, vivamos de Ti, amemos a Ti, hoje e por toda a eternidade.

Por que nutrir-se assiduamente da Palavra de vida e celebrar a eucaristia a cada dia, fazendo de tudo para que esta não falte jamais? Para encontrar-Te, Jesus, luz da nossa vida, amor que dás sentido a tudo e a tudo transformas, amor que torna até um como eu capaz de graça e de perdão. Escuto a cada dia as Tuas Palavras e celebro a cada dia o Teu memorial para que todos possam conhecer-Te e amar-Te do modo como só Tu podes tornar capaz cada um, e porque eu mesmo, que tenho necessidade do pão cotidiano para viver, a cada dia tenho necessidade de Ti para crescer na vida que não acabará jamais. Neste dúplice sentido digo ao Pai, por mim e pelos meus irmãos, as palavras que Tu me ensinaste: “Dá-nos hoje o nosso pão cotidiano”. Na Tua Palavra e no Pão da vida a cada dia posso encontrar-Te, Senhor Jesus, para que eu seja alcançado e transformado sempre mais pela Tua beleza, para ser – apesar de mim mesmo – o reflexo pobre e enamorado de Ti, o Pastor belo. Sei bem que tudo isso poderia tornar-se um hábito e que por isso devo vigiar para que o encontro contigo seja sempre novo: sei também, porem, que o hábito, se é sinal de fidelidade, é algo de verdadeiro e de belo. Encontrando-Te, posso dizer verdadeiramente que celebro pelos outros e com eles, mesmo que eles não estejam visivelmente presentes, porque em Ti encontro o povo que me confiaste, a Ti confio o seu amor e a sua dor, ainda que muitos deles jamais o saibam. Este é o ministério da intercessão, ao qual me chamaste, de oração pelos outros e no lugar deles, também por aqueles que não conheci e jamais conhecerei, aquela oração que só posso viver de verdade se unido a Ti, em Ti e por Teu meio, porque Tu és o Sacerdote da nova e eterna aliança entregue pela vida, pela alegria e a beleza de cada uma das Tuas criaturas.

Sim, porque Tu, Senhor Jesus Cristo, não és apenas verdade e bondade: Tu és beleza, a beleza que salva. Tu és o pastor belo que nos guia para as pastagens da vida, onde está a beleza sem ocaso. A cada dia desejo repousar no Teu peito para escutar-Te: “Compreendeu o sentido das palavras de Jesus, só aquele que repousou no peito de Jesus” (Orígenes, In Joannem 1,6). Celebrando a cada dia, espero tornar-me também eu um pouco mais verdadeiro e bom em Ti, Tu que na Tua Igreja me alcanças como o único bem, a bondade perfeita, a beleza que transfigura tudo. Penso que no mais fundo do coração de todos nós padres, sacerdotes da reconciliação, testemunhas do Evangelho, haja esta mesma necessidade: é belo saber que podemos encontrar-te a cada dia e crescer assim na comunhão entre nós e com toda a Igreja no altar da vida. Irmão no sacerdócio, desejo dizer-te que àquela mesa te levarei de modo todo especial, e tu levarás a mim, e junto estará Cristo para levar-nos, levar a nossa cruz e a dos outros da qual devemos nos encarregar, a dar-nos a Sua vida de Ressuscitado, que venceu o pecado e a morte para vencê-los em nós e nos nossos companheiros de caminho, no tempo e na eternidade.

Termino esta carta com algumas palavras do Cura de Ars, São João Maria Vianney, especial patrono deste ano sacerdotal, para que possamos fazê-las nossas na verdade do coração e da vida: “Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus... Como é belo!” – “Não há dois modos bons de servir a Deus. Há um só: servi-lo como ele quer ser servido” – “O sacerdócio é o amor do coração de Jesus” – Meu Deus, faz-me a graça de amar-te tanto quanto é possível que eu te ame”. Amem!


D. Bruno Forte
Arcebispo de Chieti-Vasto
Tradução de Pe. Siro Manuel de Oliveira
www.anosacerdotal.org.br

domingo, 29 de novembro de 2009

Advento, uma luz que brilhou, brilha e brilhará




1º Domingo Advento
Ano C
Jr 33,14-16
Sl 24
1Ts 3,12 – 4,2
Lc 21,25-28.34-36


Uma luz que brilhou, brilha e brilhará

O Advento e o Natal experimentaram um incremento de seu aspecto externo e festivo profano tal que no seio da Igreja surge, da própria fé, uma aspiração a um Advento autêntico: a insuficiência desse ânimo festivo por si só se deixa sentir, e o objetivo de nossas aspirações é o núcleo do acontecimento, esse alimento do espírito forte e consistente do qual nos fica um reflexo nas palavras piedosas com as quais nos felicitamos nas festas. Qual é esse núcleo da vivência do Advento?

Podemos tomar como ponto de partida a palavra «Advento»; este termo não significa «espera», como poderia se supor, mas é a tradução da palavra grega parusia, que significa «presença», ou melhor, «chegada», quer dizer, presença começada. Na Antigüidade era usado para designar a presença de um rei ou senhor, ou também do deus ao qual se presta culto e que presenteia seus fiéis no tempo de sua parusia. Ou seja, o Advento significa a presença começada do próprio Deus. Por isso, nos recorda duas coisas: primeiro, que a presença de Deus no mundo já começou, e que ele já está presente de uma maneira oculta; em segundo lugar, que essa presença de Deus acaba de começar, ainda que não seja total, mas está em processo de crescimento e amadurecimento.

Sua presença já começou, e somos nós, os crentes, que, por sua vontade, devemos fazê-lo presente no mundo. É por meio de nossa fé, esperança e amor que ele quer fazer brilhar a luz continuamente na noite do mundo. De modo que as luzes que acendamos nas noites escuras deste inverno sejam ao mesmo tempo consolo e advertência: certeza consoladora de que «a luz do mundo» já foi acesa na noite escura de Belém e transformou a noite do pecado humano na noite santa do perdão divino; por outra parte, a consciência de que esta luz somente pode - e somente quer - seguir brilhando se é sustentada por aqueles que, por ser cristãos, continuam através dos tempos a obra de Cristo.

A luz de Cristo quer iluminar a noite do mundo através da luz que somos nós; sua presença já iniciada deve seguir crescendo por meio de nós. Quando na noite santa soar uma e outra vez o hino Hodie Christus natus est (= Hoje Cristo nasceu), devemos recordar que o início que foi produzido em Belém deve ser em nós início permanente, que aquela noite santa é novamente um «hoje» cada vez que um homem permite que a luz do bem faça desaparecer nele as trevas do egoísmo (...) a criança - Deus nasce ali onde se obra por inspiração do amor do Senhor, onde se faz algo mais que intercambiar presentes.

Advento significa presença de Deus já começada, mas também apenas começada. Isto implica que o cristão não olha somente o que já foi e o que aconteceu, como também ao que está por vir. Em meio a todas as desgraças do mundo, tem a certeza de que a semente de luz segue crescendo oculta, até que um dia o bem triunfará definitivamente e tudo lhe estará submetido: no dia em que Cristo retorne. Sabe que a presença de Deus, que acaba de começar, será um dia presença total. E esta certeza o faz livre, dá-lhe um apoio definitivo.



Cardeal Joseph Ratzinger
Meditação sobre o Tempo do Advento
D.Henrique S. da Costa Site


Advento: Deixemo-nos transformar por Cristo




1º Domingo Advento
Ano C
Jr 33,14-16
Sl 24
1Ts 3,12 – 4,2
Lc 21,25-28.34-36


D.Orani Tempesta: Deixemo-nos transformar por Cristo


O Ano Litúrgico gira em torno das duas grandes festas do mistério de nossa salvação: o Natal e a Páscoa. A fim de nos prepararmos bem para essas duas solenidades de máxima importância, a Santa Igreja, com seu amor de mãe e sua sabedoria de mestra, instituiu o Advento, que nos predispõe para o Natal, e a Quaresma, que nos prepara para a Páscoa. Praticamente um mês e meio de Advento-Natal e três meses de Quaresma-Páscoa. O tempo chamado “Comum” durante o ano ajuda-nos a caminhar com a Igreja nas estradas da história, iluminados por esses mistérios de nossa fé e conduzidos pelo Espírito Santo.

No próximo final de semana, iniciamos o tempo do Advento, que assinala também o início de um novo Ano Litúrgico. Estaremos proclamando aos domingos, principalmente, o Evangelho de Lucas. Um novo ano que queremos que seja um aprofundamento de nossa vida cristã na história como discípulos missionários.

Iniciamos com a expectativa da vinda do Messias até o anúncio que o Senhor Jesus é Rei. Neste tempo é que a Igreja nos incentiva a colaborar com a Coleta pela Evangelização no terceiro domingo do Advento, preparada nos domingos anteriores. É a nossa corresponsabilidade de levar adiante a encarnação da boa notícia no tempo que chamamos hoje. O tema deste ano: “Ele se fez pobre para nos enriquecer”, já aponta para as reflexões que iremos ter durante a próxima Quaresma, pois a Campanha da Fraternidade de 2010 falará sobre economia.

No decurso dos quatro domingos do Advento, o povo cristão é convidado a preparar os caminhos para a vinda do Rei da Paz. O Cristo Senhor, que há dois mil anos nasceu como homem numa manjedoura em Belém da Judéia, deseja ardentemente nascer em nossos corações, conforme as santas palavras da Escritura: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20).

No Advento temos a oportunidade de aprofundar a expectativa do “Senhor que virá para julgar os vivos e os mortos”, e na semana que antecede a festa natalina a preparação próxima para celebrar o “Senhor que nasceu pobre no Oriente”. Entre essas duas vindas, o cristão celebra cada dia o seu coração que se abre para o “Senhor que vem” em sua vida e renova a sua existência.

Celebrar o Natal é reconhecer que “Deus visitou o seu povo” (Lc 7, 16). Tal reconhecimento não se pode efetivar somente com nossas palavras. A visita de Deus quer atingir o nosso coração e transformar-nos desde dentro. A tão desejada transformação do mundo, a superação da fome, a vitória da paz e a efetiva fraternidade entre os homens dependem, na verdade, da renovação dos corações. Somos convidados, em primeiro lugar, a aprender a “estar com Jesus”, e então nossa vida em sociedade verá nascer o Sol da Justiça. Nesse sentido, o Santo Padre Bento XVI chamou a atenção para a relevância social da comunhão pessoal com Cristo: “O fato de estarmos em comunhão com Jesus Cristo envolve-nos no seu ser « para todos », fazendo disso o nosso modo de ser. Ele compromete-nos a ser para os outros, mas só na comunhão com Ele é que se torna possível sermos verdadeiramente para os outros, para a comunidade” (Carta encíclica Spe Salvi, n. 28).

Enquanto todos se voltam para o lucro comercial neste tempo que antecede o Natal, os católicos se preparam para que em seu coração haja espaço para o Verbo Encarnado que veio para salvar a todos. O festival de presépios feitos por artistas e espalhados pela cidade, além dos presépios das paróquias, quer ajudar a cidade a ter um novo olhar e repensar sobre o que exatamente celebramos no Natal. Dependerão do encontro com “Ele” as mudanças sonhadas para a sociedade hodierna!

O Advento constitui precisamente o tempo favorável para a preparação do nosso coração. Deixemo-nos transformar por Cristo, que mais uma vez quer nascer em nossa vida neste Natal. Celebrar bem a solenidade do Natal do Senhor requer que saibamos apresentar a Deus um coração bem disposto, pois “não desprezas, ó Deus, um coração contrito e humilhado” (Sl 51, 19). Um coração que busca com sinceridade a conversão é fonte de inestimável comunhão com Deus e com os irmãos. Por isso mesmo, a oportunidade das celebrações penitenciais se multiplicam pelas Paróquias, dando oportunidade de uma renovação interior. Neste tempo de Advento não tenhamos medo de Cristo. “Ele não tira nada, Ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira” (Bento XVI, homilia da Missa de início do ministério petrino, 24/4/2005).

Como servidor do rebanho de Cristo que me foi confiado, não poderia deixar de insistir nisso: a vida verdadeira, que todos desejamos, só o Amor no-la pode dar. “O ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: « Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor » (Rom 8,38-39)” (Carta encíclica Spe Salvi, n. 26).

Que o tempo do Advento predisponha nossos corações a acolher com intensidade o “Amor que move o sol e as outras estrelas” (Dante, Divina Comédia, Paraíso, XXXIII, 145), e que, por pura bondade, manifestou-se com inigualável força no nascimento do frágil menino de Belém para também mover com suavidade e força a nossa vontade para o Bem.


D.Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo do Rio de Janeiro
Arquidiocese do Rio de Janeiro/RJ


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sacerdote, Alter Christus




SACERDOTE, ALTER CHRISTUS


“Alter Christus, o sacerdote está profundamente unido ao Verbo do Pai que encarnando-se tomou a forma de servo, fez-se servo (Cf. Filipenses 2,5-11). O sacerdote é servo de Cristo, no sentido de que sua existência, configurada ontologicamente com Cristo, assume um caráter essencialmente relacional: ele está em Cristo, para Cristo e com Cristo ao serviço dos homens. Precisamente porque pertence a Cristo, o sacerdote está radicalmente ao serviço dos homens: é ministro de sua salvação, de sua felicidade, de sua autêntica libertação, amadurecendo, neste assunção progressiva da vontade de Cristo, na oração, nele está “unido de coração” com Ele. Esta é portanto a condição imprescindível de todo anúncio, que leva à participação no oferecimento sacramental da Eucaristia e a obediência dócil à Igreja”.


Papa Bento XVI
Discurso Audiência Geral
24 de junho de 2009

Formação ascética das novas gerações – exortação de Bento XVI




Papa exorta formação ascética das novas gerações


CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 4 de setembro de 2009 (ZENIT.org) - Por ocasião do 17º Convênio Ecumênico Internacional de Espiritualidade Ortodoxa, Bento XVI deseja que o “encontro fraterno” suscite uma consciência renovada do valor da luta espiritual como consequência do amor de Cristo e um empenho generoso na formação ascética das novas gerações”.

Assim diz a mensagem enviada em nome do Pontífice ao Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado Vaticano, por ocasião da que o Papa definiu como “uma oportuna iniciativa” sobre o tema “A luta espiritual na tradição ortodoxa”.

A mensagem está dirigida a Enzo Bianchi, Prior do Mosteiro de Bose, que hospedará o Convênio nos dias 9 a 12 de setembro.

A iniciativa, explicam os organizadores, “representa uma importante ocasião de intercâmbio sobre temas essenciais da vida espiritual, no qual as tradições do Oriente e do Ocidente cristãos se cruzam com as profundas expectativas do homem contemporâneo”.

O tema deste ano, segundo reconheceu, “toca o centro de um problema atualíssimo: o que impede que o coração do homem ame em liberdade? Como vencer os fantasmas que habitam nele e que condicionam sua vontade?”.

“Esta é – observam – a arte da luta contra os ‘pensamentos malvados’, como a tradição define estas imagens, impulsos, inclinações negativas que turbam a ‘mente’, distraindo-a da lembrança de Deus e empurrando-a ao pecado.”

“Reler hoje a sabedoria dos Padres significa também perguntar-se sobre algo mais radical, sempre presente no fundo das transformações da modernidade: no fundo, o que é o pecado? O que torna verdadeiramente livre ou escraviza a consciência do homem”? acrescentam.

Abrirão os trabalhos tratando dos fundamentos bíblicos e teológicos da luta espiritual. Na jornada conclusiva, será sublinhada a validez ecumênica e o significado para o homem contemporâneo.

Os participantes provêm de 21 países. Estarão presentes também numerosos monges e monjas de mosteiros ortodoxos, católicos e reformados.


Papa Bento XVI
04 de setembro de 2009

Santo Agostinho - Papa Bento XVI elogia minissérie sobre Santo Agostinho



Papa elogia minissérie sobre Santo Agostinho

“Espero que muitos, ao vê-la, possam ser encontrados pela Verdade”.

CASTEL GANDOLFO, quinta-feira, 3 de setembro de 2009 (ZENIT.org) - O Papa Bento XVI agradeceu aos produtores da minissérie televisiva “Santo Agostinho” pelo trabalho realizado e desejou que “muitos, vendo este drama humano, possam ser encontrados pela Verdade e encontrem a Caridade”.

Segundo uma nota emitida nesta quinta-feira pela Sala de Imprensa da Santa Sé, ontem à tarde se apresentou ao Papa, na Sala dos Suíços do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, uma síntese da minissérie, co-produção dirigida pelo canadense Christian Duguay, que será transmitida em breve pela televisão.

Trata-se de um projeto conjunto da produtora italiana Lux Vide e da Bayerischer Rundfunk/Tellux Film (televisão bávara), junto com a RAI (Rádio-televisão italiana), a Eos Entertainment Gmbh e a produtora polonesa Grupa Filmova Baltmedia .

O Papa mostrou sua “grande alegria” pelo projeto, já que este, segundo explicaram os produtores, surgiu a partir de uma observação sua “informal” há 3 anos, durante uma entrevista concedida à Bayerischer Rundfunk (ARD), ZDF, Deutsche Welle e à Rádio Vaticano.

Naquela ocasião, o Papa afirmou: “Imagino que seriam filmes muito bonitos. Naturalmente, conheço bem apenas os Padres da Igreja: fazer um filme sobre Agostinho, também um sobre Gregório Nazianzeno e sua figura muito particular, sua fuga contínua das responsabilidades cada vez maiores que lhe eram impostas, e assim por diante”.

É preciso “demonstrar que não há sempre situações feias em torno das quais fazem tantos filmes, mas que há figuras maravilhosas na história, que não são absolutamente monótonas, mas muito atuais. Em resumo, é preciso buscar não carregar excessivamente as pessoas, mas tornar visíveis para muitos as figuras que são atuais e que são capazes de nos inspirar”, acrescentou o Papa naquela ocasião.

Nesta quarta-feira, ao terminar a projeção, Bento XVI a definiu como “uma grande viagem espiritual” e “uma grandiosa representação”.

“De fora, a vida de Santo Agostinho parece terminar de forma trágica: o mundo em que ele vivia acaba, é destruído. Mas, como se afirmou aqui, sua mensagem permaneceu e, inclusive nas transformações do mundo, ela perdura, porque vem da Verdade e guia à
Caridade, que é nosso destino comum. Na verdade, parece-me que este filme é uma viagem espiritual em um continente espiritual muito distante de nós e, no entanto, muito próximo, porque o drama humano é sempre o mesmo.

Vemos como, em um contexto para nós muito distante, representa-se toda a realidade da vida humana, com todos os seus problemas, as tristezas, os fracassos, como também o fato de que, no final, a Verdade é maior que qualquer obstáculo e encontra o homem. Esta é a grande esperança que permanece no final: nós não podemos encontrar a Verdade sozinhos, mas a Verdade, que é uma Pessoa, nos encontra”.


Papa Bento XVI
Castel Gandolfo, 03 de setembro de 2009