quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A santidade do sacerdote à luz de São Tomás de Aquino



É necessário que o sacerdote se santifique para que a graça sacramental da Ordem frutifique dia a dia

Considerando com profundidade a essência da ordenação sacerdotal e do próprio ministério sagrado, São Tomás nos ensina que o presbítero deve tender à perfeição mais ainda que um religioso ou uma freira. E de fato, para se entender tal ensinamento, basta ter bem presente o alto grau de santidade que a Celebração Eucarística e a santificação das almas exigem de um ministro, como nos adverte o Divino Mestre: “Vós sois o sal da terra; mas, se o sal se torna insosso, com que se salgará? Não servirá para nada senão para jogá-lo fora a fim de que os homens o pisem. Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-14a). Diante dessa enorme responsabilidade, compreende-se o motivo pelo qual não poucos santos tiveram receio da ordenação sacerdotal.

No mesmo sentido, afirma o famoso Pe. Garrigou-Lagrange: “É necessário que o sacerdote se santifique para que a graça sacramental da Ordem frutifique dia a dia”.

Esta questão é de candente atualidade, pois o sucesso maior ou menor de seu ministério em favor dos fiéis pode depender, de modo particular, do próprio sacerdote. Sabemos que os Sacramentos operam com eficácia pelo poder de Cristo, produzindo a graça por si mesmos. No entanto, sua penetração será maior ou menor conforme as disposições interiores de quem os recebe. E aqui entra um elemento subjetivo no qual tem importante papel a ação pastoral do ministro ordenado, pois sua virtude, seu fervor, seu empenho em pregar o Evangelho, em última análise, a santidade de sua vida — a qual é, por sua vez, uma forma excelente e insubstituível de pregação —, podem influenciar os fiéis a receberem os Sacramentos com melhores disposições, beneficiando-se, assim, mais de seus frutos.

Será este o fator de maior relevância no bom desempenho do ministério sacerdotal?

A propósito, na Carta para a Proclamação do Ano Sacerdotal, de 16 de junho p.p., o Santo Padre Bento XVI ressalta que o sacerdote deve aprender de São João Maria Vianney “a sua total identificação com o próprio ministério”, e acrescenta:

Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a Sua ação salvífica era e é expressão do Seu “Eu filial” que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à Sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objetiva do ministério e a subjetiva do ministro.

Por essa razão, deseja o Papa, neste Ano Sacerdotal, “favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual, sobretudo, depende a eficácia de seu ministério”.

É este ponto — de máxima importância para a vida da Igreja, mormente para a missão de anunciar o Evangelho e de santificar os fiéis — que pretendemos abordar nestas páginas: a relação entre eficácia do ministério sacerdotal e santidade pessoal de quem o exerce.

Recorreremos primordialmente ao ensinamento perene de São Tomás de Aquino, cuja importância e atualidade têm sido sublinhadas pelos Papas mais recentes, entre os quais Paulo VI. “É a primeira vez que um Concílio Ecumênico, o Vaticano II, recomenda um teólogo, e este é São Tomás”, afirma ele na Carta Lumen Ecclesiæ. E mais adiante, continua:

É tão poderoso o talento do Doutor Angélico, tão sincero seu amor à verdade e tão grande sua sabedoria ao indagar as verdades mais elevadas, ao explicá-las e relacioná-las com profunda coerência, que sua doutrina é instrumento eficacíssimo, não só para salvaguardar os fundamentos da fé, mas também para dela extrair, de modo útil e seguro, frutos de sadio progresso.


Mons. João Scognamiglio Clá Dias
www.clerus.org

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