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sábado, 20 de março de 2010

Quaresma 2010: A Arte da Oração



A Arte da Oração


Rezar é um ato natural, um capítulo da antropologia, exatamente porque o ser humano tem uma abertura congênita para o transcendente, o divino. Rezar é também um ato de justiça para com nossa alma, pois a oração é expressão do espírito, da alma, do coração. É também um ato de justiça em relação a Deus. “Nele somos, vivemos e existimos” (At 17, 28).

A oração é antes de tudo terapêutica porque pacifica, unifica, ordena a vida, os pensamentos e os afetos. “Os efeitos da oração em nossa pessoa são mais visíveis que os das glândulas de secreção interna”, diz o prêmio Nobel da medicina (1922), Dr. Alexis Carrel, ateu convertido.

A arte da oração consiste em que o orante se comunica com Deus, com os outros e consigo mesmo e assim faz grandes descobertas, encontra soluções, recebe iluminações e muita força interior. K Jung e V. Frankl são psicólogos que exaltam a importância e a eficácia da oração, sem a qual, as pessoas não se curam de suas neuroses. Eles sabem muito bem que a pessoa orante entra no nível alfa, freqüência profunda do cérebro humano.

Quem não reza está numa situação muito desconfortável e até incômoda, porque irá buscar alívio e sedativo no álcool, farras, drogas e sempre permanece vítima do vazio existencial e da solidão. Sempre justificará seus erros e fugas, tendo necessidade espontânea de ridicularizar quem reza, como se a oração fosse o “catecismo dos fracos e perdedores”. De fato, só os humildes e autênticos rezam.

É preciso rezar com fé. Acreditar no poder da oração. Rezar é estar com Deus e com os outros. Normalmente a oração verdadeira e profunda leva à compaixão, ao perdão, à solidariedade. O amor é fruto da oração. Rezar é um ato de amor e o amor é conseqüência da oração. Os santos, os místicos são sempre pessoas de paz, de fraternidade e de ação em favor dos pobres e pecadores. A oração, é amor de amizade com Deus que nos leva ao amor-serviço para com os outros.

A oração é uma “alavanca que move o mundo” (Sta.Terezinha). De fato, quantas pessoas são vitoriosas frente a doenças, mágoas, decepções, injúrias. A oração as salvou. Quem reza se salva.

A oração é uma ponte. A pessoa orante é fabricadora de pontes, é pontífice. Abatem-se os muros, constroem-se pontes, com a sabedoria da oração. Esta ponte, a oração, vai da terra ao céu e do coração do orante aos irmãos. A escalada da oração é exigente, requer perseverança. É um combate.

A oração é muralha, é escudo, é proteção, é abrigo, é segurança. Quem reza está imunizado contra muitos males. A oração nos protege das tentações. Sem oração caímos na murmuração e abraçamos a tentação.

A oração é escola. O mestre interior é o Espírito Santo. Na escola da oração aprendemos a prática do bem, a beleza do perdão, a alegria da convivência, a esperança nas decepções. A oração nos faz discípulos, iluminados, sábios, humanos e verdadeiros. Moisés tinha o rosto iluminado após a oração. Irradiava o fulgor de Deus.

A oração enche o orante de audácia e coragem, de força e tenacidade, de luz e compaixão. Jesus não somente reza, mas, ensina a rezar, principalmente a perseverança na oração. Os primeiros cristãos eram “assíduos na oração” (At 2, 42). De fato, a oração é inspiração de cada momento, recolhimento do coração, recordação das maravilhas de Deus, é força para a luta cotidiana. Eis a arte da oração.

A oração é uma rendição diante de nossa insuficiência e da paternidade de Deus. A oração é a fala entre filhos(as) e Pai. Portanto, oração é questão de amizade, é encontro de duas consciências, duas intimidades, duas existências. Na oração acontece uma troca de olhares, de confidências, de interioridades. Rezar é um ato de amor, um ato afetivo que inflama o orante de amor a Deus e ao próximo.


Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Advento e Experiência de Deus



Advento e Experiência de Deus

Deus vem para se comunicar, estabelecer amizade e aliança, intimidade e reciprocidade com a humanidade. A espiritualidade do Advento privilegia cinco grandes experiências de Deus, vejamos:

1-A experiência da beleza - Obras do Senhor, bendizei ao Senhor! Encontramos Deus e fazemos altas experiências de sua grandeza, beleza, sabedoria, providência e amor, nas obras da criação. “Os céus narram a glória do Senhor” diz o Salmista. O cosmos é uma grande catedral, um santuário, uma bíblia, um sacramento do encontro com Deus. As coisas visíveis nos levam ao Invisível. A terra é uma grande catequista. Temos razões demais para uma consciência e amor ecológicos. Deus vem e está na criação.

2-Os encontros - Nossa vida é marcada pela “arte do encontro”. Encontrar-se, relacionar-se, comunicar-se faz bem a nós e aos outros. São marcantes os encontros que Jesus estabeleceu com as pessoas. O que promove a mudança e o crescimento é a relação de amor. Advento é tempo propício para encontros humanos, mas, principalmente de encontro com Deus e conosco mesmos.

Encontro é empatia, compreensão, perdão, sensibilidade. Nossos encontros são lugares de experiência de Deus. Ele gosta de ser encontrado nas pessoas amigas como também nos pobres, presos, pecadores. Tão importantes são os encontros que os próprios desencontros, podem levar ao encontro.

3-A arte - Deus gosta de ser encontrado através da beleza da arte, da música, da dança, do teatro, das pinturas, imagens e poesias. A arte verdadeira é epifania do mistério e sacramento do Sumo Bem. O esplendor do bem e da verdade reflete-se na arte e suscita assombro, admiração, enlevo e adoração. Na arte se dá a experiência do Advento de Deus, enfim, “a beleza salvará o mundo”.

Hoje fala-se muito da “via pulchitudinis”, ou seja, da “vida beleza” como caminho para Deus, encontro com o Sumo Bem, portanto, um jeito novo de fazer teologia. Deus é amor e humor. Deus é o artífice das belezas criadas e a obra prima de suas mãos é a pessoa humana. Jesus, no Natal, faz-se um belo Menino e será o bom e belo pastor. Ele é a maior fascinação da humanidade.

4-A Liturgia - As celebrações realizadas com fé e arte, com ética e estética exercem fascínio e comoção, trazem Deus até nós e nos levam até Ele. Os ritos e os ritmos, atraem, cativam e convidam ao sublime, ao transcendente, às coisas do alto. As cerimônias religiosas são luz da glória de Deus. As celebrações, especialmente a missa, perdem seu encanto quando são mal preparadas e mal celebradas. O sublime não deve tornar-se aborrecedor muito menos algo banalizado e até ridículo. Espaço celebrativo, leituras, microfones, cantos, ritos têm o poder de cativar e despertar para a presença de Deus e realizar o encontro íntimo, pessoal, verdadeiro com o Pai que ama e revela seu amor. A liturgia abre as portas do coração, convida para a comunhão, arrebata para o sublime e nobre, torna palpável a ação da graça.

Os verdadeiros ritos, celebrados dignamente, provocam lágrimas, dilatam as emoções, abrem a consciência, proporcionam conversão e mudança de vida. Todas as celebrações devem facilitar o advento de Deus e uma amorosa e profunda experiência do ministério.

5-A generosidade - Um gesto de amor vale mais que toda a massa do universo e que todas as pregações. Onde está a solidariedade ali está Deus. Nosso amor fraterno é manifestação de Deus para a pessoa amada. A linguagem da generosidade é universal. Deus é encontrado na experiência da dádiva, do altruísmo, do voluntariado.

Como não ver Deus num gesto de adoção, de doação de sangue, de respeito, de ternura, de reconciliação? Numa sociedade de mercado, os gestos de gratuidade e tudo aquilo que é de graça, agrada, atrai, envolve. Que a gratuidade vença o espírito de gratificação que perpassa a vida moderna! Todo gesto de amor é visibilidade da presença de Deus, é advento da graça. Nossos encontros sejam adventos. Deixemo-nos encontrar por aquele que nos procura e quer encontrar-nos. Antes que eu te busque. Senhor, tu já me encontraste. Eu não te encontraria se tu não tivesses primeiro vindo ao meu encontro.


Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina
Publicado na Folha de Londrina
Sábado 29 de novembro de 2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ano Sacerdotal - O sacerdote não existe para si; o padre é de Deus e para os outros





Viva o Ano Sacerdotal


O sacerdote não existe para si; o padre é de Deus e para os outros


Toda a Igreja é agraciada com o Ano Sacerdotal. Jesus demonstrou muito carinho pelos seus Doze. Passou uma noite inteira rezando para escolhê-los. Escolheu os que quis (Mc 3, 13). Criou com eles um forte vinculo de amizade e discipulado. Educou-os na ótica do evangelho. Motivou-nos a pedir ao Senhor da messe, mais operários. Despede-se do mundo com a oração sacerdotal (Jo 17).

A teologia ensina que o Padre age na pessoa de Jesus, em nome da Igreja e em favor do povo. Ele é a ponte, a escada, a rota entre Deus e o povo. O padre está a serviço da nova humanidade em Cristo. É consagrado para um mundo novo, é ordenado para ordenar o mundo na ótica do amor fraterno. A história de uma vocação é uma história de amor e de salvação. Deus ama os padres porque ama seu povo. Tudo que se diz do Padre é em benefício do povo. O Ano Sacerdotal, é um ano do povo sacerdotal.

O Padre tem obrigação de ser homem de Deus. Quem vai à farmácia quer remédio, quem vai à padaria quer pão, quem vai ao açougue quer carne, quem vai ao padre quer Deus. O padre é um perito nas coisas de Deus, é a visibilidade do amor de Deus, é o administrador dos mistérios de Deus. O sacerdócio é um mistério insondável de amor.

São Francisco de Assis dizia: “quero temer, honrar e amar os sacerdotes como meus senhores, pois neles está o Filho de Deus. Não levo em consideração os seus pecados, porque reconheço neles o Filho de Deus e eles são os meus senhores”. Notemos que no tempo de São Francisco o clero vivia numa época de decadência. Só o amor haverá de soerguer o sacerdote ferido e caído. S. João Vianney afirma que morreríamos de amor se conseguíssemos compreender o sacerdócio na terra. Só será compreendido no céu.

Santa Teresinha do Menino Jesus confessa: “Vim para o Carmelo para rezar pelos sacerdotes”. Continua afirmando: “Deus não chamou os que são dignos, mas os que Ele quis. É por misericórdia que Deus chama”. Toda vocação tem sua raiz na misericórdia de Deus, porque nós padres somos “vasos de argila” carregando o mistério. O Padre não é anjo nem demônio, é homem consagrado no qual Deus apostou.

Nossos Padres não precisam tanto de confetes, mas de compreensão, colaboração, perdão e oração. Por outro lado, o povo quer um bom médico, um bom professor, um bom advogado, forçosamente quer ter um bom Padre. Ajudemos nossos Padres a serem bons e santos. Um povo sem Padre decai em desumanidades. Ninguém como o Padre tem o poder de anular, destruir e vencer o mal. Só o Padre pode dizer: “Eu te absolvo. És agora inocente. És nova criatura. Vai em paz”. Só o Padre pode dizer: “Isto é o meu corpo” e assim acontece o maior milagres da história que ecoa por todo o universo. O Padre torna Jesus nosso contemporâneo pela Eucaristia.

A Igreja depende do trabalho dos presbíteros. Por isso o Concílio aponta seis qualidades do Padre: bondade de coração, sinceridade, coragem, constância, cultivo da justiça, fineza. Os sacerdotes são ministros de Deus, colaboradores dos Bispo, promotores dos leigos, transformadores da sociedade.

O sacerdócio é sacrifício e alegria, dom e tarefa. A ovelha não produz a lã para si, a abelha não faz o mel para si, as aves não fazem o ninho para si.

Assim, o Padre não existe para si.

Ele é de Deus e para os outros.

Promove a glória de Deus e a salvação do mundo, daí a necessidade de o Padre ser um especialista em Deus e um perito em humanismo.

Antes de ser consagrado, o Padre é alguém humano, rodeado de fraqueza. Pelo batismo, o Padre é um cristão, um discípulo, é ovelha do rebanho, “para vós sou Bispo, convosco sou cristão”. Num terceiro momento vem o sacerdócio. Que nós Bispos e Padres sejamos, pois, humanos, cristãos e sacerdotes.


Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina-PR
Arquidiocese de Londrina
Shalom