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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A Imaculada Conceição segundo o Cura D’Ars




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38

A Imaculada Conceição segundo o Cura D’Ars

“Se um casal rico, endinheirado, tivesse muitos filhos, e se os filhos viessem a morrer, sobrevivendo apenas um deles, este herdaria tudo dos pais.

Da mesma forma, Adão e todos os seus descendentes morreram graças ao pecado original. E Maria, único ser isento do pecado, tornou-se herdeira das graças da inocência e dos favores destinados aos filhos de Adão. Se todos estivessem em estado de inocência, quanta riqueza de dons! Quantos favores! Deus fez de Maria, fiel depositária de suas graças.

Lemos, no Evangelho, que um pai de família saiu de manhã, bem cedo, à procura de trabalhadores que laborassem seus vinhedos. Então, não havia ninguém nesta vinha? Sim, havia Maria, que nela nascera. E que vinha é esta? É a graça.

Sim, Maria nasceu na graça, pois foi concebida sem pecado. Nós fomos chamados a esta vinha. O pai de família buscou por nós; Maria, porém, sempre esteve na graça. Oh! A bela obreira! Ela é pura e sem mácula. O bom Deus poderia ter criado um mundo mais belo do que este existente, mas não poderia criar criatura mais perfeita do que Maria”.


São João Maria Vianney
In: Monsenhor R. Fourrey, A Virgem Maria e o Cura D´ars, 1989, Ars

ADVENTO É TEMPO PARA REDESCOBRIR QUE A ESPERANÇA NÃO É ALGO, MAS ALGUÉM




«ADVENTO É TEMPO PARA REDESCOBRIR QUE A ESPERANÇA NÃO É ALGO, MAS ALGUÉM»

Cidade do Vaticano, 29 nov 2008(RV) - Bento XVI presidiu esta tarde, na Basílica de São Pedro, a celebração das Primeiras Vésperas do I Domingo do Advento. Sobre o significado desse tempo litúrgico que nos prepara para a celebração do Natal de nosso Salvador, eis o que nos disse o Arcebispo de Chieti-Vasto, centro da Itália, Dom Bruno Forte, nos microfones da nossa emissora:

“O Advento é, por excelência, o tempo da espera e da preparação para a vinda do Filho de Deus entre nós, para o seu Natal, o Natal de Deus que é a festa da sempre nova fidelidade de Deus em seu compromisso de amor pelos homens. Eis o motivo pelo qual o Advento é, por excelência, um tempo extraordinário de esperança, a esperança que não é algo, é ‘Alguém’, é o Deus conosco, o Deus que vem. Justamente por isso é o tempo privilegiado para retomar a encíclica de Bento XVI, a ‘Spes salvi’, que nos ajuda a redescobrir a esperança, não como uma dimensão entre as outras da existência cristã, mas como virtude de certo modo unificadora e portadora porque a fé é projetada para o amanhã e é a caridade vivida no hoje como preparação do Advento do Reino de Deus.”


Dom Bruno Forte
Radio Vaticano

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Carta aos sacerdotes sobre a oração do Cardeal Cláudio Hummes




CARTA AOS SACERDOTES SOBRE A ORAÇÃO


Do Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero

ROMA, quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Publicamos a carta que o Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, enviou aos sacerdotes, falando sobre a oração.

* * *

Caros Presbíteros,

Na vida do Presbítero, a oração ocupa necessariamente um lugar central. Não é difícil de entender, porque a oração cultiva a intimidade do discípulo com seu Mestre, Jesus Cristo. Todos sabemos que, ao esvaecer-se a oração, debilita-se a fé e o ministério perde conteúdo e sentido. A consequência existencial para o Presbítero exprime-se em menor alegria e felicidade no ministério quotidiano. É como se o Presbítero, ao seguir os passos de Jesus, lado a lado com tantos outros, perdesse o passo no caminho, ficando sempre mais para trás e mais distante do Mestre, até perdê-Lo de vista no horizonte. A partir de então, caminha sem rumo e vacilante.

São João Crisóstomo, numa homilia, ao comentar a Primeira Carta de Paulo a Timóteo, adverte sabiamente: “O diabo joga-se contra o pastor [...]. Com efeito, se matar as ovelhas o rebanho diminui; ao invés, eliminando o pastor, destruirá o rebanho inteiro”. O comentário faz pensar em muitas situações hodiernas. Crisóstomo admoesta que a diminuição dos pastores faz e fará diminuir sempre mais o número dos fiéis e das comunidades. Sem pastores, nossas comunidades serão destruídas!

Aqui, porém, desejo, antes de tudo, falar da necessária oração para que, como diria Crisóstomo, os pastores vençam o diabo e não pereçam. Em verdade, sem o alimento essencial da oração, o Presbítero adoece, o discípulo não encontra forças para seguir o Mestre, e assim morre por inanição. Em consequência, seu rebanho se dispersa e morre.

Realmente, cada Presbítero é, por definição, portador de uma referência essencial à comunidade eclesial. Ele é um discípulo muito especial de Jesus, que o chamou e, pelo sacramento da Ordem, o configurou a Si como Cabeça e Pastor da Igreja. Cristo é o único Pastor, mas quis fazer participar a Seu ministério os Doze e seus Sucessores, mediante os quais também os Presbíteros, ainda que em grau inferior, são feitos participantes deste sacramento, de tal forma que também eles participem, a seu modo próprio, do ministério de Cristo, Cabeça e Pastor. Isso comporta um laço essencial do Presbítero com a comunidade eclesial. Ele não pode omitir-se no que diz respeito a essa responsabilidade, dado que a comunidade sem pastor se desfaz. A exemplo de Moisés, deve permanecer de braços erguidos ao céu, em oração, para que o povo não pereça.

Por esta razão, para continuar fiel a Cristo e à comunidade, o Presbítero precisa ser homem de oração, homem que vive na intimidade do Senhor. Necessita, além disso, ser confortado pela oração da Igreja e de cada cristão. As ovelhas devem rezar por seu pastor! Mas, quando este se dá conta que sua própria vida de oração enfraquece, é hora de dirigir-se ao Espírito Santo e implorá-Lo com ânimo de pobre. O Espírito reacenderá o fogo em seu coração. Reacenderá a paixão e o encanto para com o Senhor. Este está sempre ali e deseja fazer a ceia com quem Lhe abre a porta.

É Ano Sacerdotal e, por isso, queremos orar, com perseverança e grande amor, pelos Presbíteros e com os Presbíteros. A propósito, a Congregação para o Clero, cada primeira Quinta Feira do mês, durante o Ano Sacerdotal, às 16 horas, celebra uma Hora eucarístico-mariana, na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, para os Sacerdotes e com os Sacerdotes. Conosco vem rezar muita gente, com alegria.

Caríssimos Presbíteros, aproxima-se o Natal de Jesus Cristo. Faço a todos vós os melhores e mais fraternos votos de Bom Natal e Feliz Ano de 2010. O Menino Deus, no presépio, convida-nos a renovar para com Ele aquela intimidade de amigos e discípulos, a fim de reenviar-nos como Seus anunciadores!

Cardeal Dom Cláudio Hummes
Arcebispo Emérito de São Paulo
Prefeito da Congregação para o Clero
Carta aos sacerdotes sobre a oração

Advento: O Filho do Homem vem à nossa procura




O Filho do Homem vem à nossa procura


Imaginai a desolação de um pobre pastor cuja ovelha se tresmalhou. Em todos os campos vizinhos só ouve a voz dessa infeliz que, tendo abandonado o grosso do rebanho, corre nas florestas e pelas colinas, passa pelas partes mais densas dos bosques e pelos silvados, lamentando-se e gritando com todas as forças e não podendo resolver-se a voltar sem ter encontrado a sua ovelha e a ter trazido para o redil.

Aqui está o que o Filho de Deus fez, assim que os homens se desviaram, pela sua desobediência à direção do seu Criador; ele desceu à terra e não rejeitou nem cuidados nem fadigas para nos restabelecer no estado de que tínhamos decaído. É o que ele faz ainda todos os dias com aqueles que se afastaram dele pelo pecado; ele segue-os, por assim dizer, não cessando de os chamar até que os tenha reposto no caminho da salvação. E seguramente, se não fizesse isso, vós sabeis o que seria feito de nós depois do primeiro pecado mortal: ser-nos-ia impossível retornar. É preciso que seja ele a fazer tudo primeiro, que nos dê a sua graça, que nos procure, que nos convide a termos piedade de nós mesmos, sem o que não sonharíamos nunca em pedir-lhe misericórdia…

O ardor com que Deus nos procura é sem dúvida um efeito de uma enorme misericórdia. Mas a doçura que acompanha este zelo indica uma bondade ainda mais admirável. Não obstante o desejo extremo que ele tem de nos fazer voltar, nunca usa de violência, não usa para isso senão os caminhos da doçura. Em toda a história do Evangelho não vejo nenhum pecador que tenha sido convidado à penitência a não ser por ternura e por benefícios.


Dos Sermões de São Cláudio de la Colombière

Advento: A alegria pelo Senhor que vem



A alegria pelo Senhor que vem

"Então, todas as árvores da floresta saltarão de alegria diante do Senhor, porque Ele vem para julgar a terra" (Sl 95,12-13). O Senhor veio uma primeira vez e virá de novo. Veio uma primeira vez "sobre as nuvens" (Mt 26,64) na sua Igreja. Que nuvens o trouxeram? Os apóstolos, os pregadores... Veio uma primeira vez trazido pelos seus pregadores e encheu toda a terra. Não ponhamos resistência à sua primeira vinda se não queremos temer a segunda...

Que deve, pois, fazer o cristão? Aproveitar este mundo, mas não o servir. Em que consiste isso? "Possuir como se não se possuísse". É o que diz S. Paulo: "Irmãos, o tempo é breve... Desde já, aqueles que choram seja como se não chorassem, os que são felizes, como se o não fossem, os que compram, como se nada possuíssem, os que tiram proveito deste mundo, como se não se aproveitassem dele. Porque este mundo, tal como o vemos, vai passar. Quereria ver-vos livres de toda a preocupação" (1Co 7,29-32). Quem está livre de toda a preocupação espera com segurança a vinda do seu Senhor. Será que se ama o Senhor quando se receia a sua vinda? Meus irmãos, não nos envergonhamos disso? Amamo-lo e receamos a sua vinda? Amamo-lo verdadeiramente ou amamos mais os nossos pecados? Odiemos então os nossos pecados e amemos Aquele que há-de vir...

"Todas as árvores da floresta rejubilarão à vista do Senhor", porque Ele veio uma primeira vez... Veio uma primeira vez e regressará para julgar a terra; então encontrará cheios de alegria os que tiverem acreditado na sua primeira vinda.


Santo Agostinho, Bispo de Hipona e Doutor da Igreja
Do Comentário ao Salmo 95

Espiritualidade do Advento



Espiritualidade do Advento

Advento vem do latim adventus. Significa “chegada”, do verbo advenire: “chegada”. É o primeiro tempo do Ano Litúrgico, o qual antecede o Natal. Para os cristãos, é um tempo de preparação e alegria, de expectativa, durante o qual os fiéis, esperando pelo nascimento de Jesus Cristo, vivem o arrependimento, promovem a fraternidade e a paz.

No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal. O tempo do Advento é para toda a Igreja, momento de forte mergulho na liturgia e na mística cristã. É tempo de esperança, de estarmos atentos e vigilantes, preparando-nos alegremente para a vinda do Senhor Jesus, como uma noiva que se enfeita e se prepara para a chegada de seu noivo, seu amado.

O Advento começa às vésperas do domingo mais próximo do dia 30 de novembro e vai até as primeiras vésperas no Natal de Jesus, contando quatro domingos. Ademais, esse tempo possui duas características: nas duas primeiras semanas, a nossa expectativa se volta para a segunda vinda definitiva e gloriosa de Jesus Cristo, Salvador e Senhor da história. As duas últimas semanas, dos dias 17 a 24 de dezembro, visam em especial à preparação para a celebração do Natal, a primeira vinda de Jesus entre nós.

Por isso, o Tempo do Advento é um tempo de piedosa e alegre expectativa. Isso por que nos recorda a dimensão histórica da salvação, evidencia a dimensão escatológica do mistério cristão e nos insere como Igreja militante, no caráter missionário da vinda de Cristo.

Este caráter missionário do Advento se manifesta na Igreja pelo anúncio do Reino e por sua acolhida no coração do homem até a manifestação gloriosa de Cristo. As figuras de João Batista e Maria são exemplos concretos da vida missionária de cada cristão, quer preparando o caminho do Senhor, quer levando o Cristo ao irmão para o santificar.

Não se pode esquecer que toda a humanidade e a criação vivem em clima de advento, de ansiosa espera da manifestação cada vez mais visível do Reino de Deus. Celebrar o Advento é, portanto, um meio precioso e indispensável para nos ensinar sobre o mistério da salvação e assim termos a Jesus como referência e fundamento, dispondo-nos a “perder” a vida em favor do anúncio e instalação do Reino.

No Advento, precisamos nos questionar e aprofundar a vivência da pobreza. Não a pobreza econômica, mas principalmente aquela que leva a confiar, se abandonar e depender inteiramente de Deus e não dos bens terrenos. O Advento também é tempo propício à conversão. Sem um retorno de todo o ser a Cristo, não há como viver a alegria e a esperança na expectativa da sua vinda.

É necessário que preparemos o caminho do Senhor em nossas próprias vidas, lutando incessantemente contra o pecado e as fraquezas, mediante uma maior disposição para a oração e mergulho na Palavra de Deus. Portanto, para vivenciar esse tempo litúrgico da nossa Igreja, é preciso reviver alguns valores que são essenciais em nossa vida de cristãos, como: a esperança, a pobreza, a conversão. Desta forma, exclamaremos em brado de glória junto com toda a Igreja: Maranatha! Vem Senhor Jesus!


Vagner Gama dos Santos
Seminarista claretiano, estudante de Teologia

FONTE: Revista Ave Maria

Advento e Experiência de Deus



Advento e Experiência de Deus

Deus vem para se comunicar, estabelecer amizade e aliança, intimidade e reciprocidade com a humanidade. A espiritualidade do Advento privilegia cinco grandes experiências de Deus, vejamos:

1-A experiência da beleza - Obras do Senhor, bendizei ao Senhor! Encontramos Deus e fazemos altas experiências de sua grandeza, beleza, sabedoria, providência e amor, nas obras da criação. “Os céus narram a glória do Senhor” diz o Salmista. O cosmos é uma grande catedral, um santuário, uma bíblia, um sacramento do encontro com Deus. As coisas visíveis nos levam ao Invisível. A terra é uma grande catequista. Temos razões demais para uma consciência e amor ecológicos. Deus vem e está na criação.

2-Os encontros - Nossa vida é marcada pela “arte do encontro”. Encontrar-se, relacionar-se, comunicar-se faz bem a nós e aos outros. São marcantes os encontros que Jesus estabeleceu com as pessoas. O que promove a mudança e o crescimento é a relação de amor. Advento é tempo propício para encontros humanos, mas, principalmente de encontro com Deus e conosco mesmos.

Encontro é empatia, compreensão, perdão, sensibilidade. Nossos encontros são lugares de experiência de Deus. Ele gosta de ser encontrado nas pessoas amigas como também nos pobres, presos, pecadores. Tão importantes são os encontros que os próprios desencontros, podem levar ao encontro.

3-A arte - Deus gosta de ser encontrado através da beleza da arte, da música, da dança, do teatro, das pinturas, imagens e poesias. A arte verdadeira é epifania do mistério e sacramento do Sumo Bem. O esplendor do bem e da verdade reflete-se na arte e suscita assombro, admiração, enlevo e adoração. Na arte se dá a experiência do Advento de Deus, enfim, “a beleza salvará o mundo”.

Hoje fala-se muito da “via pulchitudinis”, ou seja, da “vida beleza” como caminho para Deus, encontro com o Sumo Bem, portanto, um jeito novo de fazer teologia. Deus é amor e humor. Deus é o artífice das belezas criadas e a obra prima de suas mãos é a pessoa humana. Jesus, no Natal, faz-se um belo Menino e será o bom e belo pastor. Ele é a maior fascinação da humanidade.

4-A Liturgia - As celebrações realizadas com fé e arte, com ética e estética exercem fascínio e comoção, trazem Deus até nós e nos levam até Ele. Os ritos e os ritmos, atraem, cativam e convidam ao sublime, ao transcendente, às coisas do alto. As cerimônias religiosas são luz da glória de Deus. As celebrações, especialmente a missa, perdem seu encanto quando são mal preparadas e mal celebradas. O sublime não deve tornar-se aborrecedor muito menos algo banalizado e até ridículo. Espaço celebrativo, leituras, microfones, cantos, ritos têm o poder de cativar e despertar para a presença de Deus e realizar o encontro íntimo, pessoal, verdadeiro com o Pai que ama e revela seu amor. A liturgia abre as portas do coração, convida para a comunhão, arrebata para o sublime e nobre, torna palpável a ação da graça.

Os verdadeiros ritos, celebrados dignamente, provocam lágrimas, dilatam as emoções, abrem a consciência, proporcionam conversão e mudança de vida. Todas as celebrações devem facilitar o advento de Deus e uma amorosa e profunda experiência do ministério.

5-A generosidade - Um gesto de amor vale mais que toda a massa do universo e que todas as pregações. Onde está a solidariedade ali está Deus. Nosso amor fraterno é manifestação de Deus para a pessoa amada. A linguagem da generosidade é universal. Deus é encontrado na experiência da dádiva, do altruísmo, do voluntariado.

Como não ver Deus num gesto de adoção, de doação de sangue, de respeito, de ternura, de reconciliação? Numa sociedade de mercado, os gestos de gratuidade e tudo aquilo que é de graça, agrada, atrai, envolve. Que a gratuidade vença o espírito de gratificação que perpassa a vida moderna! Todo gesto de amor é visibilidade da presença de Deus, é advento da graça. Nossos encontros sejam adventos. Deixemo-nos encontrar por aquele que nos procura e quer encontrar-nos. Antes que eu te busque. Senhor, tu já me encontraste. Eu não te encontraria se tu não tivesses primeiro vindo ao meu encontro.


Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina
Publicado na Folha de Londrina
Sábado 29 de novembro de 2009

Cardeal Dom Cláudio Hummes: um sacerdote não pode viver sem oração



Mensagem vaticana: um sacerdote não pode viver sem oração

Carta do Prefeito da Congregação para o Clero aos presbíteros

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Sem a oração, o sacerdote não pode viver, reconhece o Cardeal Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, em uma carta enviada este mês aos sacerdotes, por ocasião do Ano Sacerdotal.
“Não é difícil de entender, porque a oração cultiva a intimidade do discípulo com seu Mestre, Jesus Cristo. Todos sabemos que, ao esvaecer-se a oração, debilita-se a fé e o ministério perde conteúdo e sentido.”

“A consequência existencial para o presbítero exprime-se em menor alegria e felicidade no ministério quotidiano. É como se o presbítero, ao seguir os passos de Jesus, lado a lado com tantos outros, perdesse o passo no caminho, ficando sempre mais para trás e mais distante do Mestre, até perdê-lo de vista no horizonte. A partir de então, caminha sem rumo e vacilante.”

Mas a falta de oração não afetará somente o presbítero, e sim toda a sua comunidade eclesial, já que “sem pastores, nossas comunidades serão destruídas!”.

“A exemplo de Moisés, deve permanecer de braços erguidos ao céu, em oração, para que o povo não pereça”, assegura.

“Por esta razão, para continuar fiel a Cristo e à comunidade, o presbítero precisa ser homem de oração, homem que vive na intimidade do Senhor. Necessita, além disso, ser confortado pela oração da Igreja e de cada cristão”, afirma.

“As ovelhas devem rezar por seu pastor! Mas, quando este se dá conta que sua própria vida de oração enfraquece, é hora de dirigir-se ao Espírito Santo e implorá-lo com ânimo de pobre. O Espírito reacenderá o fogo em seu coração. Reacenderá a paixão e o encanto para com o Senhor.”


Cardeal Dom Cláudio Hummes
Arcebispo Emérito de São Paulo
Prefeito da Congregação para o Clero
Carta aos sacerdotes sobre a oração

Papa Bento XVI: todos podem encontrar Jesus



Bento XVI: todos podem encontrar Jesus

O Papa dedica a catequese de hoje ao monge beneditino Ruperto de Deutz

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Todos nós podemos “encontrar o Senhor Jesus, que incessantemente acompanha nosso caminho, faz-se presente no pão eucarístico e em sua Palavra para a nossa salvação”, afirmou hoje Bento XVI, por ocasião da Audiência Geral dedicada ao monge beneditino do século XII Ruperto de Deutz.

Durante o encontro realizado na Sala Paulo VI, o pontífice recordou os ensinamentos mais significativos deste importante teólogo, que soube “conjugar o estudo racional dos mistérios da fé com a oração e a contemplação, considerada como o cume de todo conhecimento de Deus”.

Em uma época “marcada pelos enfrentamentos entre o papado e o império, por causa da chamada ‘querela das investiduras’”, Ruperto soube escolher o caminho do exílio para poder permanecer fiel ao pontífice, mostrando que, “quando surgem controversas na Igreja, a referência ao ministério petrino garante a fidelidade à sã doutrina e dá serenidade e liberdade interior”.

Ruperto, segundo recordou o Papa, interveio em várias importantes discussões teológicas da sua época, como “decidido defensor do realismo eucarístico” contra os que propugnavam “interpretação reducionista da presença de Cristo no sacramento da Eucaristia”.

Este é um ensinamento de grande atualidade para a nossa época, explica o Papa, na qual “existe o perigo de redimensionar o realismo eucarístico, isto é, considerar a Eucaristia quase como somente um rito de comunhão, de socialização, esquecendo muito facilmente que na Eucaristia realmente está presente Cristo ressuscitado – com seu corpo ressuscitado –, que se coloca em nossas mãos para fazer-nos sair de nós mesmos, incorporar-nos ao seu corpo imortal e guiar-nos assim à vida nova”.

Outra controversa da qual o monge de Deutz participou estava relacionada à “conciliação da bondade e onipotência de Deus com a existência do mal”.

O abade reagiu contra a postura assumida pelos professores da escola teológica de Laon, que afirmavam que “Deus permite o mal sem aprová-lo e, portanto, sem querê-lo”.

Ruperto, explicou o Papa, “parte da bondade de Deus, da verdade de que Deus é sumamente bom e não pode deixar de querer o bem. Assim, identifica a origem do mal no próprio homem e no uso equivocado da liberdade humana”.

“Quando Ruperto enfrenta este tema, escreve páginas cheias de inspiração religiosa para louvar a misericórdia infinita do Pai, a paciência e a benevolência de Deus pelo homem pecador.”
Como outros teólogos do Medievo, também Ruperto se perguntava por que o Verbo de Deus, o Filho de Deus, se fez homem, afirmou o Papa, acrescentando que a sua é “uma visão cristocêntrica da história da salvação”.

Ruperto “sustenta a postura de que a Encarnação, acontecimento central de toda a história, havia sido prevista desde a eternidade, ainda independentemente do pecado do homem, para que toda a criação pudesse louvar Deus Pai e amá-lo como uma única família reunida ao redor de Cristo, o Filho de Deus”.

Ele “vê então, na mulher grávida do Apocalipse, toda a história da humanidade, que está orientada a Cristo, assim como a concepção está orientada ao parto, uma perspectiva que foi desenvolvida por outros pensadores e valorizada também pela teologia contemporânea, a qual afirma que toda a história do homem e da humanidade é concepção orientada ao parto de Cristo”.


Papa Bento XVI
Audiência Geral
09 de dezembro de 2009


Catequese: Doutrina eucarística, sabedoria milenar



Doutrina eucarística, sabedoria milenar

Intervenção do Papa na Audiência Geral de hoje

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Oferecemos, a seguir, a catequese do Papa Bento XVI durante a Audiência Geral de hoje, com os peregrinos reunidos na Sala Paulo VI.

***

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje conheceremos outro monge beneditino do século XII. Seu nome é Ruperto de Deutz, uma cidade próxima de Colônia, sede de um famoso mosteiro. O próprio Ruperto fala da sua vida em uma das suas obras mais importantes, intitulada “A glória e a honra do Filho do Homem”, que é um comentário parcial ao Evangelho de Mateus.

Ainda sendo criança, foi acolhido como “oblato” no mosteiro beneditino de São Lourenço, em Liège, segundo o costume da época de confiar um dos filhos à educação dos monges, com a intenção de oferecer um dom a Deus. Ruperto sempre amou a vida monástica. Aprendeu logo a língua latina para estudar a Bíblia e para aproveitar as celebrações litúrgicas. Distinguiu-se por sua integríssima retidão moral e pelo forte apego à Sé de Pedro.

Sua época esteve marcada pelos enfrentamentos entre o papado e o império, por causa da chamada “querela das investiduras”, com a qual – como indiquei em outras catequeses – o papado queria impedir que a nomeação de bispos e o exercício da sua jurisdição dependessem das autoridades civis, que estavam guiadas antes de mais nada por motivações políticas e econômicas, e não certamente pastorais.

O bispo de Liège, Otberto, resistia às diretrizes do Papa e mandou Berengário, abade do mosteiro de São Lourenço, ao exílio, precisamente por sua fidelidade ao pontífice. Neste mosteiro estava Ruperto, que não hesitou em seguir seu abade ao exílio e, somente quando o bispo Otberto voltou a estar em comunhão com o Papa, ele regressou a Liège e aceitou converter-se em sacerdote. Até aquele momento, de fato, ele havia evitado receber a ordenação de um bispo em dissensão com o Papa.

Ruperto nos ensina que, quando surgem controversas na Igreja, a referência ao ministério petrino garante a fidelidade à sã doutrina e dá serenidade e liberdade interior. Após a disputa com Otberto, teve de abandonar seu mosteiro outras duas vezes. Em 1116, os adversários queriam inclusive processá-lo. Ainda que tenha sido absolvido de toda acusação, Ruperto preferiu dirigir-se por um tempo a Siegburg, mas, dado que as polêmicas não haviam cessado quando voltou ao mosteiro de Liège, decidiu estabelecer-se definitivamente na Alemanha. Nomeado abade de Deutz em 1120, permaneceu lá até 1129, ano da sua morte. Afastou-se de lá somente para uma peregrinação a Roma, em 1124.

Escritor fecundo, Ruperto deixou numerosas obras, ainda hoje de grande interesse, também porque participou de várias importantes discussões teológicas da sua época. Por exemplo, interveio com determinação na controversa eucarística, que em 1077 havia levado à condenação de Berengário de Tours. Este havia dado uma interpretação reducionista da presença de Cristo no sacramento da Eucaristia, definindo-a como somente simbólica. Na linguagem da Igreja, não havia entrado ainda o termo “transubstanciação”, mas Ruperto, utilizando às vezes expressões audazes, tornou-se um defensor decidido do realismo eucarístico e, sobretudo na obra intitulada “De divinis officis” (Os ofícios divinos), afirmou com decisão a continuidade entre o Corpo do Verbo encarnado de Cristo e o presente nas espécies eucarísticas do pão e do vinho.

Queridos irmãos e irmãs: parece-me que neste ponto devemos também pensar na nossa época; também hoje existe o perigo de redimensionar o realismo eucarístico, isto é, considerar a Eucaristia quase como somente um rito de comunhão, de socialização, esquecendo muito facilmente que na Eucaristia realmente está presente Cristo ressuscitado – com seu corpo ressuscitado –, que se coloca em nossas mãos para fazer-nos sair de nós mesmos, incorporar-nos ao seu corpo imortal e guiar-nos assim à vida nova. Este grande mistério de que o Senhor está presente em toda a sua realidade nas espécies eucarísticas é um mistério que temos de adorar e amar sempre de novo! Eu gostaria de citar aqui as palavras do Catecismo da Igreja Católica, que trazem em si o fruto da meditação da fé e da reflexão teológica de dois mil anos: “O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. No santíssimo sacramento da Eucaristia estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo completo, Deus e homem” (cf. CIC 1374). Também Ruperto contribuiu, com suas reflexões, para esta precisa formulação.

Outra controversa na qual o abade de Deutz se viu envolvido tem a ver com o tema da conciliação da bondade e onipotência de Deus com a existência do mal. Se Deus é onipotente e bom, como se explica a realidade do mal? Ruperto reagiu contra a postura assumida pelos professores da escola teológica de Laon, que, com uma série de raciocínios filosóficos, distinguiam na vontade de Deus o “aprovar” e o “permitir”, concluindo que Deus permite o mal sem aprová-lo e, portanto, sem querê-lo. Ruperto, por outro lado, renuncia ao uso da filosofia, que considera inadequada frente a um problema tão grande, e permanece simplesmente fiel à narração bíblica. Parte da bondade de Deus, da verdade de que Deus é sumamente bom e não pode deixar de querer o bem. Assim, identifica a origem do mal no próprio homem e no uso equivocado da liberdade humana. Quando Ruperto enfrenta este tema, escreve páginas cheias de inspiração religiosa para louvar a misericórdia infinita do Pai, a paciência e a benevolência de Deus pelo homem pecador.

Como outros teólogos do Medievo, também Ruperto se perguntava: por que o Verbo de Deus, o Filho de Deus, se fez homem? Alguns respondiam explicando a encarnação do Verbo com a urgência de reparar o pecado do homem. Ruperto, no entanto, com uma visão cristocêntrica da história da salvação, amplia a perspectiva e, em uma obra sua titulada “A glorificação da Trindade”, sustenta a postura de que a Encarnação, acontecimento central de toda a história, havia sido prevista desde a eternidade, ainda independentemente do pecado do homem, para que toda a criação pudesse louvar Deus Pai e amá-lo como uma única família reunida ao redor de Cristo, o Filho de Deus. Ele vê então, na mulher grávida do Apocalipse, toda a história da humanidade, que está orientada a Cristo, assim como a concepção está orientada ao parto, uma perspectiva que foi desenvolvida por outros pensadores e valorizada também pela teologia contemporânea, a qual afirma que toda a história do homem e da humanidade é concepção orientada ao parto de Cristo.

Cristo está sempre no centro das explicações exegéticas proporcionadas por Ruperto em seus comentários aos livros da Bíblia, aos que se dedicou com grande diligência e paixão. Encontra, assim, uma unidade admirável em todos os acontecimentos da história da salvação, desde a criação até a consumação final dos tempos: “Toda a Escritura é um só livro, que tende ao mesmo fim [o Verbo divino]; que vem de um só Deus e que foi escrito por um só Espírito” (De glorificatione Trinitatis et processione Sancti Spiritus I,V, PL 169, 18).

Na interpretação da Bíblia, Ruperto não se limita a repetir o ensinamento dos Padres, e sim mostra sua originalidade. Ele, por exemplo, é o primeiro escritor que identificou a esposa do Cântico dos Cânticos como Maria Santíssima. Assim, seu comentário a este livro da Escritura se revela como uma espécie de summa mariológica, na qual se apresentam os privilégios e as excelentes virtudes de Maria. Em uma das passagens mais inspiradas do seu comentário, Ruperto escreve: “Ó prediletíssima entre as prediletas, Virgem das virgens, o que teu Filho predileto louva em ti, que exalta o coro inteiro dos anjos? Louva-se a simplicidade, a pureza, a inocência, a doutrina, o pudor, a humildade, a integridade da morte e da carne, isto é, a virgindade incorrupta” (In Canticum Canticorum 4,1-6, CCL 26, pp. 69-70). A interpretação mariana do Cântico dos Cânticos de Ruperto é um feliz exemplo da sintonia entre liturgia e teologia. De fato, várias passagens deste livro bíblico já eram usadas nas celebrações litúrgicas das festas marianas.

Ruperto, além disso, procura inserir sua doutrina mariológica na eclesiológica. Em outras palavras, ele vê em Maria Santíssima a parte mais santa da Igreja inteira. Daqui que meu venerado predecessor, Paulo VI, no discurso de clausura da 3ª sessão do Concílio Vaticano II, proclamando solenemente Maria como Mãe da Igreja, tenha citado precisamente uma proposição tomada das obras de Ruperto, que define Maria como portio maxima, portio optima – a parte mais excelsa, a melhor parte da Igreja (cf. In Apocalypsem 1.7, PL 169,1043).

Queridos amigos, a partir destas rápidas pinceladas, percebemos que Ruperto foi um teólogo fervoroso, dotado de grande profundidade. Como todos os representantes da teologia monástica, ele soube conjugar o estudo racional dos mistérios da fé com a oração e com a contemplação, considerada como o cume de todo conhecimento de Deus. Ele mesmo fala uma vez das suas experiências místicas, como quando confia a inefável alegria de ter percebido a presença do Senhor: “Nesse breve momento, experimentei quão verdadeiro é isso que Ele mesmo diz: ‘Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração’” (De gloria et honore Filii hominis. Super Matthaeum 12, PL 168, 1601). Também nós podemos, cada um da sua maneira, encontrar o Senhor Jesus, que incessantemente acompanha nosso caminho, faz-se presente no pão eucarístico e em sua Palavra para a nossa salvação.

Papa Bento XVI
Audiência Geral
09 de dezembro de 2009


Solenidade da Imaculada Conceição: dom imenso ter por mãe Maria Imaculada, diz Papa Bento XVI



Papa: dom imenso ter por mãe Maria Imaculada

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 8 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Publicamos o discurso que Bento XVI dirigiu ao meio-dia de hoje, ao rezar o Ângelus com os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, na solenidade da Imaculada Conceição.

* * *

Caros irmãos e irmãs!

No dia 8 de dezembro celebramos uma das mais belas festas da Beata Virgem Maria: a solenidade da sua Imaculada Conceição. Mas o que significa dizer que Maria é “Imaculada”? E que quer dizer para nós este título? Primeiramente, façamos referência aos textos bíblicos da liturgia de hoje, especialmente ao grande “afresco” que é o terceiro capítulo do Livro do Gênesis, e à narrativa da Anunciação do Evangelho de Lucas. Após o pecado original, Deus se dirige à serpente, que representa Satanás, a amaldiçoa e acrescenta uma promessa: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gen 3, 15). É o anúncio de uma virada: Satanás no início da criação parece levar a melhor, mas virá um filho de mulher que lhe esmagará a cabeça. Assim, mediante a posteridade da mulher, o próprio Deus vencerá. Essa Mulher é a Virgem Maria, da qual nasceu Jesus Cristo que, com seu sacrifício, derrotou de uma vez por todas o antigo tentador. É por isso que, em tantas pinturas e estátuas da Imaculada, Ela é representada esmagando uma serpente com o pé.

O Evangelista Lucas, ao contrário, mostra-nos a Virgem Maria que recebe o anúncio do mensageiro celeste (cfr Lc 1, 26-38). Ela aparece como a humilde e autêntica filha de Israel, verdadeira Sião na qual Deus quer fazer sua morada. É a muda da qual deve nascer o Messias, o Rei justo e misericordioso. Na simplicidade da casa de Nazaré está o “restante” puro de Israel, do qual Deus quer fazer renascer seu povo, como uma nova árvore que estenderá seus ramos por todo o mundo, oferecendo a todos os homens bons frutos de salvação. Diferentemente de Adão e Eva, Maria se mantém obediente à vontade do Senhor, pronunciando seu "sim" com tudo o que tem e se colocando plenamente à disposição do projeto divino. É a nova Eva, verdadeira mãe de todos os viventes, de todos os que pela fé em Cristo recebem a vida eterna.

Caros amigos, que dom imenso é ter por mãe Maria Imaculada! Toda vez que experimentamos nossa fragilidade e a sugestão do mal, podemos nos voltar a Ela, e nosso coração recebe luz e conforto. Também nas provações da vida, nas tempestades que fazem vacilar a fé e a esperança, pensemos que somos seus filhos e que as raízes de nossa existência afundam na infinita graça de Deus. A própria Igreja, ainda que exposta às influências negativas do mundo, encontra sempre Nela a Estrela para orientar-se e seguir o caminho indicado por Cristo. Maria é de fato a Mãe da Igreja, como proclamou solenemente o Papa Paulo VI e o Concílio Vaticano II. Enquanto damos graças a Deus por este sinal estupendo de sua bondade, confiemos à Virgem Imaculada cada um de nós, nossas famílias e nossas comunidades, toda a Igreja e o Mundo inteiro. É o que eu mesmo farei esta tarde, segundo a tradição, aos pés do monumento a Ela dedicado na Praça de Espanha.


Papa Bento XVI
Angelus, 08 de dezembro de 2009
Solenidade da Imaculada Conceição

Imaculada Conceição: o “sensus fidei” feito dogma




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38

Imaculada Conceição: o “sensus fidei” feito dogma

História e reflexões sobre a festa mariana

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 7 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - A Igreja celebra hoje a festividade da Imaculada Conceição. Como é tradição, o Papa lhe rendeu homenagem, com um cesto de flores, diante da imagem que se encontra na Praça de Espanha, em Roma.

O Ministro geral da Ordem dos Frades Menores Franciscanos, Padre José Rodríguez Carballo, nos microfones de Rádio Vaticano, compartilhou reflexões sobre o terceiro dogma mariano, proclamado há 155 anos pelo Papa Pio IX, recolhendo assim o “sentido de fé” (sensus fidei) do povo cristão.

Padre Rodríguez Carballo assinala como a fé cristã, em sua tradição, combinou sempre a religiosidade popular com a reflexão dos teólogos e do Magistério. “Tudo isso sob o sopro do Espírito Santo”, afirma.

A festa que se celebra é um claro exemplo disso, assegura o sacerdote, que indica que as Sagradas Escrituras não se referem à Imaculada Conceição de Maria explicitamente. Não obstante, desde o século II, Santo Irineu de Lyon fazia alusão ao contraste entre Eva e Maria.

Ambas mulheres, livres de pecado original: a primeira, usando mal sua liberdade, pecou e se distanciou do Paraíso; a segunda permaneceu fiel a sua natureza imaculada e se converteu para todo ser humano em um modelo de qualquer virtude representada em alto grau.

“De todos os modos, a proclamação de Maria como pura, limpa e sem mancha como santuário de impecabilidade não se entendia desde o seio materno, mas desde seu nascimento”, explica o superior dos franciscanos.

O religioso recorda o teólogo Juan Duns Scotto (segunda metade do século XIII), grande mestre de Oxford e Paris, que “defendeu o mistério imaculista em toda sua plenitude, apelando à redenção preventiva de Maria por Cristo seu filho antes de vir ao mundo”.

“Logo depois desta teoria, houve uma série de estudos mariológicos sobre a ‘cheia de graça’ e ‘morada do Verbo Encarnado’, que faria da ordem franciscana como uma porta-voz da declaração dogmática desta verdade de fé para a Igreja Universal”, explica o frade.

Os estudos teológicos e o clamor do povo por aceitar a Virgem como Imaculada concluíram na proclamação do dogma da Imaculada Conceição, em 1854.

Para isso, o Papa Pio IX consultou 603 bispos ao redor do mundo, dos quais 546 se declararam favoráveis ao dogma. “Ao povo voltava deste modo o que do povo saiu: Maria, palácio na casa de Deus, a pura e limpa, a puríssima”, assinala o franciscano.

Ele destaca o enorme significado que isso implica: “Maria é uma mulher de nossa própria constituição que molda em absoluto o ideal de pureza, beleza e santidade descrita no Apocalipse como a mulher vestida de sol coroada de estrelas, com a lua por pedestal, e pisando na cabeça da serpente”.

Padre José Rodríguez Carballo
Rádio Vaticano

Homenagem do Papa à Imaculada Conceição




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38

ATO DE VENERAÇÃO À IMACULADA NA PRAÇA DE ESPANHA

Discurso do Papa à Imaculada Conceição


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 8 de dezembro de 2009 (ZENIT.org) - Publicamos as palavras que Bento XVI pronunciou na homenagem que ofereceu na tarde dessa terça-feira, Solenidade da Imaculada Conceição, perante a imagem da Virgem Maria que se encontra na Praça de Espanha, no centro de Roma.

* * *

Queridos irmãos e irmãs,

No coração das cidades cristãs, Maria constitui uma presença doce e tranquilizadora. Com seu estilo discreto, dá a todos a paz e a esperança em momentos alegres e tristes da existência. Nas igrejas, nas capelas, nas paredes dos edifícios: um quadro, um mosaico, uma estátua recorda a presença da Mãe que vela constantemente por seus filhos. Também aqui, na Praça de Espanha, Maria está colocada no alto, como que velando por Roma.

Que diz Maria à cidade? Que recorda a todos com sua presença? Recorda que “onde se multiplicou o pecado, transbordou a graça” (Romanos 5, 20), como escreve o apóstolo Paulo. Ela é a Mãe Imaculada que repete também aos homens de nosso tempo: não tenhais medo, Jesus venceu o mal; venceu seu domínio desde a raiz. Quanta necessidade temos desta bela notícia! Todo dia, de fato, através dos jornais, da televisão, do rádio, o mal é narrado, repetido, amplificado, acostumando-nos às coisas mais horríveis, fazendo-nos insensíveis, em certo sentido, intoxicando-nos, pois o negativo não se digere plenamente e dia após dia se acumula. O coração endurece e os pensamentos se tornam sombrios. Por esse motivo, a cidade tem necessidade de Maria, que com sua presença nos fala de Deus, recorda-nos a vitória da Graça sobre o pecado, e nos leva a ter esperança, inclusive nas situações humanamente mais difíceis.

Na cidade vivem –ou sobrevivem– pessoas invisíveis, que de vez em quando saltam às primeiras páginas ou às telas da televisão, e são aproveitadas até o fim, enquanto a notícia e sua imagem chamam a atenção. É um mecanismo perverso, perante o qual infelizmente é difícil opor resistência. A cidade primeiro escondo e logo expõe ao público. Sem piedade ou com falsa piedade. No entanto, em todo homem se dá o desejo de ser acolhido como pessoa e considerado como uma realidade sagrada, pois cada história humana é uma história sagrada e exige o maior respeito.

A cidade, queridos irmãos e irmãs, somos todos nós! Cada um contribui para a sua vida e seu clima moral, para o bem ou para o mal. No coração de cada um de nós passa a fronteira entre o bem e o mal, e nenhum de nós deve sentir-se com o direito de julgar os demais, mas cada um deve sentir o dever de melhorar a si mesmo. Os meios de comunicação tendem a fazer que sempre nos sintamos “espectadores”, como se o mal só afetasse os demais, certos eventos que a nós não poderia nunca acontecer. No entanto, todos somos “atores” e, tanto no mal como no bem, nosso comportamento tem uma influência sobre os demais.

Com frequência, nos queixamos da contaminação do ar, que em certos lugares da cidade é irrespirável. É verdade: requer-se o compromisso de todos para tornar a cidade mais limpa. E, no entanto, há outra contaminação, menos perceptível pelos sentidos, mas igualmente perigosa. É a contaminação do espírito, que faz que nossos rostos sorriam menos, sejam mais tristes, que nos leva a não nos saudar, a não nos olhar nos olhos... A cidade está cheia de rostos, mas infelizmente as dinâmicas coletivas podem nos fazer perder a percepção de sua profundidade. Tudo o vemos superficialmente. As pessoas convertem-se em corpos e estes corpos perdem a alma, convertem-se em coisas, objetos sem rostos, intercambiáveis, objetos de consumo.

Maria Imaculada nos ajuda a redescobrir e defender a profundidade das pessoas, pois nela se dá uma perfeita transparência da alma no corpo. É a pureza em pessoa, no sentido de que espírito, alma e corpo são nela plenamente coerentes entre si e com a vontade de Deus. A Virgem nos ensina a nos abrir à ação de Deus para ver os demais como Ele os vê: a partir do coração. E ao vê-los com misericórdia, com amor, com ternura infinita, especialmente os mais sós, depreciados, os que sofrem abusos. “Onde se multiplicou o pecado, transbordou a graça”.

Quero render homenagem publicamente a todos aqueles que, em silêncio, sem palavras, mas com fatos, esforçam-se para praticar esta lei evangélica do amor, que leva adiante o mundo. São tantos, inclusive aqui, em Roma, e poucas vezes tornam-se notícia. Homens e mulheres de todas as idades, que compreenderam que de nada serve condenar, queixa-se, jogar a culpa, mas que é melhor responder ao mal com o bem. Isso é o que muda a realidade; ou melhor dito, muda as pessoas, por conseguinte, melhora a sociedade.

Queridos amigos romanos e todos os que vivem nesta cidade! Enquanto estamos ocupados com as atividades cotidianas, escutemos a voz de Maria. Escutemos seu apelo silencioso, mas urgente. Ela nos diz a cada um: que onde se multiplicou o pecado possa transbordar a graça, a partir precisamente de teu coração e de tua vida! E a cidade será mais bela, mais cristã, mais humana.

Obrigado, Mãe Santa, por esta mensagem de esperança. Obrigado por tua silenciosa mas eloquente presença no coração de nossa cidade. Virgem Imaculada, Salus Populi Romani, orai por nós!

Papa Bento XVI
Solenidade da Imaculada Conceição
08 de dezembro de 2009
Praça de Espanha, Roma


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A Imaculada Conceição segundo o Cura D’Ars




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38


A Imaculada Conceição segundo o Cura D’Ars

Se um casal rico, endinheirado, tivesse muitos filhos, e se os filhos viessem a morrer, sobrevivendo apenas um deles, este herdaria tudo dos pais.

Da mesma forma, Adão e todos os seus descendentes morreram graças ao pecado original. E Maria, único ser isento do pecado, tornou-se herdeira das graças da inocência e dos favores destinados aos filhos de Adão. Se todos estivessem em estado de inocência, quanta riqueza de dons! Quantos favores! Deus fez de Maria, fiel depositária de suas graças.

Lemos, no Evangelho, que um pai de família saiu de manhã, bem cedo, à procura de trabalhadores que laborassem seus vinhedos. Então, não havia ninguém nesta vinha? Sim, havia Maria, que nela nascera. E que vinha é esta? É a graça.

Sim, Maria nasceu na graça, pois foi concebida sem pecado. Nós fomos chamados a esta vinha. O pai de família buscou por nós; Maria, porém, sempre esteve na graça. Oh! A bela obreira! Ela é pura e sem mácula. O bom Deus poderia ter criado um mundo mais belo do que este existente, mas não poderia criar criatura mais perfeita do que Maria.


São João Maria Vianney
In: Monsenhor R. Fourrey,
A Virgem Maria e o Cura D´ars, 1989, Ars

Imaculada Conceição: Maria, estrela que aponta para a verdadeira felicidade




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38


Maria, estrela que aponta para a verdadeira felicidade


Queridos irmãos e irmãs:

No caminho do Advento, brilha a estrela de Maria Imaculada, «sinal de esperança e consolo» (Concílio Vaticano II, Constituição Lumen Gentium, 68). Para chegar a Jesus, luz verdadeira, sol que dissipou todas as trevas da história, precisamos ter perto de nós pessoas que sejam um reflexo da luz de Cristo e que dessa forma iluminem o caminho que devemos percorrer. E que pessoa mais luminosa que Maria? Quem melhor que ela pode ser para nós a estrela da esperança, a aurora que anunciou o dia da salvação? (cf. Encíclica Spe Salvi, 49). Por este motivo, a liturgia nos convida a celebrar hoje, ao aproximar-se o Natal, a festa solene da Imaculada Conceição de Maria: o mistério da graça de Deus envolveu, desde o primeiro instante de sua existência, a criatura destinada a converter-se na Mãe do redentor, preservando-a do contágio do pecado original. Ao contemplá-la, reconhecemos a altura e a beleza do projeto de Deus para cada homem: chegar a ser santos e imaculados no amor (cf. Ef 1, 4), à imagem do nosso Criador.

Que grande dom é ter Maria Imaculada como mãe! Uma mãe resplandecente de beleza, transparente ao amor de Deus. Penso nos jovens de hoje, que cresceram em um ambiente saturado de mensagens que propõem falsos modelos de felicidade. Estes garotos e garotas correm o risco de perder a esperança, pois freqüentemente parecem órfãos do verdadeiro amor, que confere significado e alegria à vida. Este foi um tema muito importante para meu querido predecessor João Paulo II, que tantas vezes propôs Maria à juventude do nosso tempo, como «Mãe do belo amor».

Muitas experiências nos mostram lamentavelmente que os adolescentes, os jovens e até as crianças são vítimas fáceis da corrupção do amor, enganados por adultos sem escrúpulos que, mentindo para si mesmos e para eles, atraem-nos aos becos sem saída do consumismo: inclusive as realidades mais sagradas, como o corpo humano, templo de Deus do amor e da vida, tornam-se dessa forma objetos de consumo. E isso cada vez mais rápido, já desde a pré-adolescência. Que tristeza é ver os meninos e meninas perderem a maravilha, o encanto dos sentimentos mais belos, o valor do respeito ao corpo, manifestações da pessoa e do seu insondável mistério!

Maria, a Imaculada, nos recorda tudo isso; nós a contemplamos em toda a sua beleza e santidade. Na cruz, Jesus a confiou a João e a todos os discípulos (cf. Jo 19, 27), e desde então ela se converteu para toda a humanidade em Mãe, Mãe da esperança. A ela dirigimos com fé a nossa oração, enquanto visitamos espiritualmente Lourdes, onde precisamente neste dia começa um ano jubilar especial, por ocasião do 150º aniversário das suas aparições na gruta de Massabielle. Maria Imaculada, «Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos em nosso caminho» (Encíclica Spe Salvi, 50).


Papa Bento XVI
Angelus, 08 de Dezembro de 2007

Imaculada Conceição: A missão da Imaculada-O Pai Celeste quis que Seu Filho a tivesse por Mãe




Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
08 de dezembro

Ano C
Gn 3,9-15.20
Sl 97
Ef 1,3-6.11-12
Lc 1,26-38


A missão da Imaculada: o Pai Celeste quis que Seu Filho a tivesse por Mãe

«Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher»

Sempre que se contempla a Imaculada sente-se no coração a necessidade de nos aproximarmos d'Ela. Aqueles que a amam e aqueles que escrevem sobre Ela param para perceber quem Ela é, mesmo que a não conheçam em profundidade.

Quem é Ela em relação a Deus Pai? Ele é o seu criador, certamente; Ela diz de si própria: «Eu sou a serva do Senhor» (Lc 1,38). Mas o que é também? É a preferida do Pai Eterno. Não podemos conceber isto; as palavras humanas não chegam para o expressar.

O Pai Celeste quis que a segunda pessoa da Santíssima Trindade, Seu Filho, tivesse por mãe, no tempo, a Imaculada. Ela é verdadeiramente a Mãe do Filho de Deus. Quão difícil de compreender! É necessário estarmos bem unidos à Mãe de Deus para compreendermos mais profundamente este mistério.

A Virgem Maria é a Mãe do Filho de Deus, é verdadeiramente Mãe de Deus, pelo que não pode ser comparada com os outros santos. Ser criado, ser adoptado por Deus, isso ainda se pode entender. Mas ser realmente a Mãe de Deus, e não apenas a mãe da humanidade de Jesus, ultrapassa a nossa inteligência. É uma verdade de fé.

E é Esposa do Espírito Santo. Também isto não é possível conceber! O Espírito Santo uniu-Se de tal maneira à Imaculada, que formou com Ela um só ser. Em tudo isto, a nossa inteligência não é suficiente, pois a Trindade é infinita. E, mesmo que tivéssemos um conhecimento total, há uma distância infinita entre o que nós conhecemos da Santíssima Trindade e o que ela é realmente. Mais tarde, no céu, entenderemos bem melhor este mistério. Mesmo depois de milhares e milhares de anos, este conhecimento permanecerá sempre limitado, sendo necessária a eternidade para atingirmos o conhecimento perfeito.


São Maxilimiliano Mª Kolbe, Franciscano, mártir
Conferência de 26/11/1938 (trad. Villepelée, A missão da Imaculada, Lethielleux 2003, p. 24)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Advento: Jesus se vai aproximando de mim cada vez mais




Sinto que o meu Jesus se vai aproximando de mim cada vez mais!


Sinto que o meu Jesus se vai aproximando de mim cada vez mais. Permitiu que, nestes dias, eu caísse no mar, me afundasse na consideração das minhas misérias, da minha soberba, para me fazer compreender mais a imperiosa necessidade que tenho dele. Quando estava prestes a afundar-me, Jesus, caminhando sobre as águas, veio sorridente ao meu encontro para me salvar.

Eu queria dizer-lhe como Pedro: “Afasta-te de mim que sou um homem pecador” (Lc 5, 8); mas a ternura do seu coração, a suavidade do seu tom, advertiu-me: “Não tenhas medo” (Lc 5, 10). Nada temo ao vosso lado. Descanso no vosso peito; como a ovelha perdida, escuto as palpitações do vosso coração; Jesus, sou vosso, uma vez mais, sempre vosso. Contigo, sou verdadeiramente grande; débil talo de junco, sem ti, sou uma coluna, apoiado em ti.

Não me hei de esquecer nunca da minha miséria, para recear sempre de mim mesmo; mas, embora humilhado e confuso, devo, com confiança crescente, abraçar-me ao vosso coração, porque a minha miséria é o trono da vossa misericórdia e do vosso amor.


Papa João XXIII
Diário da Alma

ADVENTO: VEM ATÉ MIM, SENHOR!



VEM ATÉ MIM, SENHOR!

Meu Senhor Jesus,
eu bem gostaria de amar.
Meu Senhor, não te fies em mim!
Meu Senhor, já te disse,
se Tu não me ajudas,
nunca farei nada bem feito.

É o que te digo: eu não te conheço,
procuro-te e não te encontro:
Vem até mim, meu Senhor!

Se eu te conhecesse,
também me conheceria a mim próprio.
Eu nunca te amei,
eu bem gostaria de te amar, Senhor Jesus.

Eu não quero fazer senão a tua vontade.
Eu desconfio de mim próprio.
Em ti, eu confio, Senhor!


S. Filipe Neri
Orações

ADVENTO: BENTO XVI ABRE TEMPO DO ADVENTO COM HOMILIA




BENTO XVI ABRE TEMPO DO ADVENTO COM CELEBRAÇÃO DAS VÉSPERAS


Cidade do Vaticano, 28 nov (RV) - "Se Jesus está presente, não existe mais nenhum tempo desprovido de sentido e vazio. Se Ele está presente podemos continuar esperando mesmo quando os outros não mais puderem assegurar-nos nenhum apoio, mesmo quando o presente se torna enfadonho": foi o que disse o Papa na Homilia das Primeiras Vésperas do I Domingo do Advento, por ele presididas no final desta tarde na Basílica Vaticana.


Caros irmãos e irmãs,

Com esta celebração vespertina entramos no tempo litúrgico do Advento. Na leitura bíblica que acabamos de ouvir, extraída da 1ª Carta aos Tessalonicenses, o apóstolo Paulo nos convida a preparar a "vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo" (5,23) guardando-nos irrepreensíveis, com graça de Deus. Paulo usa exatamente a palavra "vinda", em latim adventus, da qual provém o termo Advento.

Reflitamos brevemente sobre o significado desta palavra, que pode ser traduzida como "presença", "chegada", "vinda". Na linguagem do mundo antigo era um termo técnico, utilizado para indicar a chegada de um funcionário, a visita do rei ou do imperador em uma província. Mas, podia também indicar a vinda da divindade, que sai de seu escondimento para se manifestar com poder, ou que é celebrada por sua presença no culto. Os cristãos adotaram a palavra "advento" para expressar a sua relação com Jesus Cristo: Jesus é o Rei, que entra nesta pobre "província" denominada terra para visitar a todos; na festa de seu advento faz participar todos os que n'Ele crêem, todos os que crêem em sua presença em meio à assembléia litúrgica. Com a palavra adventus, se pretendia substancialmente dizer: Deus está aqui, ele não se retirou do mundo, não nos deixou a sós. Embora não possamos vê-lo nem tocá-lo como acontece com as realidades sensíveis, Ele está aqui e vem visitar-nos em diversos modos.

O significado da expressão "advento" compreende então também o de visitatio, que quer dizer simples e diretamente "visita"; neste caso, trata-se de uma visita divina: Ele entra em minha vida e quer se dirigir a mim. Todos experimentamos na existência quotidiana, o fato de termos pouco tempo para o Senhor e pouco tempo também para nós. Acabamos deixando-nos absorver pelo "fazer". Não seria talvez apropriado dizer que somos muitas vezes tomados pela atividade, que a sociedade com seus múltiplos interesses monopoliza a nossa atenção? Não seria talvez apropriado afirmar que se dedica muito tempo à diversão e ao lazer de diferentes tipos? Às vezes as coisas nos "arrastam". O Advento, este tempo litúrgico forte que estamos iniciando, nos convida a parar em silêncio para compreender uma presença. É um convite a entender que cada evento do dia são sinais que Deus dirige a nós, prova da atenção que Ele tem por cada um de nós. Quão freqüentemente Deus nos faz perceber algo de seu amor! Manter, por assim dizer, um "diário interior" deste amor seria uma bonita e salutar tarefa para a nossa vida! O Advento nos convida e nos impulsiona à contemplação do Senhor presente. A certeza de sua presença não deveria nos ajudar a ver o mundo com olhos diferentes? Não deveria nos ajudar a considerar toda a nossa existência como "visita", como um modo no qual Ele pode vir a nós e nos tornar mais próximos, em cada situação?

Outro elemento fundamental do Advento é a espera, espera que ao mesmo tempo esperança. O Advento nos impele a compreender o sentido do tempo e da história como "kairós", como ocasião favorável à nossa salvação. Jesus mostrou esta realidade misteriosa em muitas parábolas: no relato dos servos convidados a esperar o retorno do patrão; na parábola das virgens que esperam o esposo; ou ainda nos relatos sobre a semeadura e colheita. O homem, em sua vida, está em constante espera: quando é criança, quer crescer; quando adulto busca a realização e o sucesso; com o passar dos anos, aspira ao merecido repouso. Mas chega o tempo no qual ele descobre que esperou pouco se, independente da profissão ou do status social, não lhe resta mais nada para esperar. A esperança marca o caminho da humanidade, mas para os cristãos esta é animada por uma certeza: o Senhor está presente no correr da nossa vida, nos acompanha e um dia enxugará também as nossas lágrimas. Um dia, não distante, tudo encontrará seu cumprimento no Reino de Deus, Reino de justiça e de paz.

Mas existem maneiras muito diferentes de esperar. Se o tempo não é preenchido por um presente dotado de sentido, a espera pode tornar-se insuportável; se espera-se algo, mas no momento não há nada, se o presente permanece vazio, cada segundo que passa parece infinitamente longo, e a espera se transforma num fardo muito pesado, porque o futuro permanece totalmente incerto. Quando, porém, o tempo é dotado de sentido, e em cada instante percebemos algo de específico e de válido, então a alegria da espera torna o presente mais precioso. Caros irmãos e irmãs, vivamos intensamente o presente onde já nos alcançam os dons do Senhor, vivamo-lo com nosso olhar voltado para o futuro, um futuro cheio de esperança. O Advento cristão se torna assim ocasião para reavivar em nós o verdadeiro sentido da espera, retornando ao coração da nossa fé, que é o mistério de Cristo, o Messias esperado ao longo de séculos e nascido na pobreza de Belém. Vindo em meio a nós, nos encontrou e continua a nos oferecer o dom de seu amor e de sua salvação. Presente entre nós, nos fala em diversos modos: na Sagrada Escritura, no ano litúrgico, nos santos, nos eventos da vida cotidiana, em toda a criação, que muda de aspecto conforme a condição de que Ele lhe esteja por detrás ou que seja ofuscada pela névoa de uma origem incerta e de futuro incerto. Por sua vez, nós podemos falar com Ele, apresentar a ele os sofrimentos que nos afligem, a impaciência, as perguntas que brotam no coração. Acreditemos que Ele sempre nos ouve! E se Jesus está presente, não existe mais nenhum momento vazio e sem sentido. Se Ele está presente, podemos prosseguir esperando também quando os outros não podem nos assegurar ajuda; também quando o presente se torna cansativo.

Caros amigos, o Advento é o tempo da presença e da espera do eterno. Exatamente por este motivo, em particular, é um tempo de alegria, de alegria interiorizada, que nenhum sofrimento pode cancelar. A alegria pelo fato de que Deus se fez criança. Esta alegria, em modo invisível presente entre nós, nos encoraja a caminhar confiantes. Modelo e apoio deste íntimo gáudio é a Virgem Maria, através da qual nos foi dado o Menino Jesus. Que Ela obtenha para nós, como fiel discípula de seu Filho, a graça de viver este tempo litúrgico vigilantes e laboriosos na espera. Amém!


Papa Bento XVI
Homilia das Vésperas do I Domingo do Advento
28 de novembro de 2009

BRUNO FORTE PARA O ADVENTO: Padres por amor – Mensagem para o Ano Sacerdotal




Padres por amor

Por D. Bruno Forte


Mensagem para o Ano Sacerdotal 2009-2010


No início deste ano sacerdotal quero fazer contigo, irmão no sacerdócio, a pergunta que está na base da nossa identidade e da nossa missão: por que somos padres? Quem fez com que déssemos toda a nossa vida por este ministério do Evangelho da reconciliação, da eucaristia e da caridade? A resposta só pode ser uma: Jesus Cristo. Somos padres porque Ele nos quis tais, nos chamou e assim nos amou, e ainda nos quer assim e nos ama sempre, Ele que é fiel no amor. O sentido da nossa vida, a razão verdadeira da nossa vocação não está em alguma coisa, talvez até a coisa mais bela do mundo, mas em Alguém: este Alguém é Ele, o Senhor Jesus. Somos padres porque um dia Ele nos alcançou e nos chamou (cada um de nós sabe como: na palavra de uma testemunha, num gesto de caridade que tocou nosso coração, no silêncio de um caminho de escuta e oração, até na dor de sentir que a vida nos parecia como que vazia sem Ele).

A Ele que chamava dissemos sim: e desde então se acendeu em nós uma chama de amor, que com a sua graça não mais se apagou. Uma chama que nos faz arder por Ele, desejá-Lo, querer o que Ele quer para nós. Creio não exagerar, nem dizer palavras grandiloquentes. Na realidade, não teríamos podido ser padres e sê-lo na fidelidade, apesar de tudo, se Ele não tivesse no-lo dado a viver em nós, a enamorar-nos Dele sempre de novo. É este amor que nos impulsionou a todas as obras que fizemos pelos outros: desde a simples acolhida de coração à escuta perseverante e paciente, desde esforço de transmitir a todos o sentido e a beleza da vida vivida para Deus às obras de caridade e ao empenho pela justiça, co-dividindo especialmente a ânsia do pobre e procurando ser a voz de quem não tem voz. Certamente, parece-nos sempre pouco o que fizemos: sentimos o peso dos nossos erros, cometidos muitas vezes de boa fé; dói em nós a tristeza dos nossos pecados; nos turbam as nossas omissões. Se algo de verdadeiro e de belo fizemos, foi porque Jesus nos concedeu fazê-lo: é Ele que se deu a nós e nos tornou capazes de gestos de gratuidade que por nós mesmos não teríamos podido sequer pensar ou sonhar.

Esta premissa – testemunho da nossa vida de chamados por Cristo - explica porque sinto a necessidade a cada dia de escutar a Palavra do Amado e de celebrar a Eucaristia e porque creio que estes apontamentos são tão importantes para nós: não se trata de uma obrigação, mas de uma necessidade, não só emotiva (às vezes, pelo contrário, a emotividade parece à parte, totalmente), mas profunda, iniludível. É a necessidade de preencher a cada dia a nossa vida com Ele: é Jesus que nos disse que para cada dia basta o seu afã (cf. Mateus 6,34), isto é, que cada dia é longo aquele tanto que basta para sustentar a luta para conservar a fé. A cada dia nasce o sol para nós e a cada dia o nosso coração sedento de amor tem necessidade que o sol do Amado o alcance e o esquente de novo: se Ele é a nossa vida, o sentido e a sua beleza, outra coisa não podemos fazer que encontrá-Lo ali onde Ele vivo e verdadeiro fala à Igreja e se oferece por nós. Que dirias de um enamorado que – podendo – não sentisse a necessidade de encontrar até a cada dia a pessoa amada, de escutar a sua voz? Se isto vale para o amor humano, que geralmente é tão frágil e volúvel, como poderia não valer para o amor que não desilude e não trai, o amor que faz viver no tempo e para a eternidade, o amor de Deus em Cristo Jesus, nossa vida?

Eis onde nasce, pois, a necessidade de encontrá-lo a cada dia, sempre de novo: onde podemos satisfazer esta exigência senão ali onde Ele nos fala e nos garante o dom da sua presença? “O amigo do esposo exulta de alegria à voz do esposo” (João 3,29) – “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna” (5,24). “Este é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim – Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22,19-20). Sim, a cada dia temos necessidade de Ti, Jesus: e se no domingo Te encontramos na festa do dia primeiro e último, o dia da Tua ressurreição e da vida nova que Tu dás à Igreja e ao mundo, a graça de poder celebrar a cada dia o memorial da Tua páscoa, na escuta da Tua Palavra, enche de alegria e de paz o nosso coração de sacerdotes. Verdadeiramente, não estamos sós no caminho do nosso ministério: és Tu que nos visitas sempre de novo com a Tua Palavra de vida; és Tu que nos visitas nos irmãos e nas irmãs que colocas na nossa estrada; és Tu que no pobre pedes a nós amor e em qualquer um que tenha necessidade do amor nos chamas a dar; és Tu – no vértice de tudo isso e como fonte viva deste rio de vida – que Te fazes presente na eucaristia, para que nos nutramos de Ti, vivamos de Ti, amemos a Ti, hoje e por toda a eternidade.

Por que nutrir-se assiduamente da Palavra de vida e celebrar a eucaristia a cada dia, fazendo de tudo para que esta não falte jamais? Para encontrar-Te, Jesus, luz da nossa vida, amor que dás sentido a tudo e a tudo transformas, amor que torna até um como eu capaz de graça e de perdão. Escuto a cada dia as Tuas Palavras e celebro a cada dia o Teu memorial para que todos possam conhecer-Te e amar-Te do modo como só Tu podes tornar capaz cada um, e porque eu mesmo, que tenho necessidade do pão cotidiano para viver, a cada dia tenho necessidade de Ti para crescer na vida que não acabará jamais. Neste dúplice sentido digo ao Pai, por mim e pelos meus irmãos, as palavras que Tu me ensinaste: “Dá-nos hoje o nosso pão cotidiano”. Na Tua Palavra e no Pão da vida a cada dia posso encontrar-Te, Senhor Jesus, para que eu seja alcançado e transformado sempre mais pela Tua beleza, para ser – apesar de mim mesmo – o reflexo pobre e enamorado de Ti, o Pastor belo. Sei bem que tudo isso poderia tornar-se um hábito e que por isso devo vigiar para que o encontro contigo seja sempre novo: sei também, porem, que o hábito, se é sinal de fidelidade, é algo de verdadeiro e de belo. Encontrando-Te, posso dizer verdadeiramente que celebro pelos outros e com eles, mesmo que eles não estejam visivelmente presentes, porque em Ti encontro o povo que me confiaste, a Ti confio o seu amor e a sua dor, ainda que muitos deles jamais o saibam. Este é o ministério da intercessão, ao qual me chamaste, de oração pelos outros e no lugar deles, também por aqueles que não conheci e jamais conhecerei, aquela oração que só posso viver de verdade se unido a Ti, em Ti e por Teu meio, porque Tu és o Sacerdote da nova e eterna aliança entregue pela vida, pela alegria e a beleza de cada uma das Tuas criaturas.

Sim, porque Tu, Senhor Jesus Cristo, não és apenas verdade e bondade: Tu és beleza, a beleza que salva. Tu és o pastor belo que nos guia para as pastagens da vida, onde está a beleza sem ocaso. A cada dia desejo repousar no Teu peito para escutar-Te: “Compreendeu o sentido das palavras de Jesus, só aquele que repousou no peito de Jesus” (Orígenes, In Joannem 1,6). Celebrando a cada dia, espero tornar-me também eu um pouco mais verdadeiro e bom em Ti, Tu que na Tua Igreja me alcanças como o único bem, a bondade perfeita, a beleza que transfigura tudo. Penso que no mais fundo do coração de todos nós padres, sacerdotes da reconciliação, testemunhas do Evangelho, haja esta mesma necessidade: é belo saber que podemos encontrar-te a cada dia e crescer assim na comunhão entre nós e com toda a Igreja no altar da vida. Irmão no sacerdócio, desejo dizer-te que àquela mesa te levarei de modo todo especial, e tu levarás a mim, e junto estará Cristo para levar-nos, levar a nossa cruz e a dos outros da qual devemos nos encarregar, a dar-nos a Sua vida de Ressuscitado, que venceu o pecado e a morte para vencê-los em nós e nos nossos companheiros de caminho, no tempo e na eternidade.

Termino esta carta com algumas palavras do Cura de Ars, São João Maria Vianney, especial patrono deste ano sacerdotal, para que possamos fazê-las nossas na verdade do coração e da vida: “Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus... Como é belo!” – “Não há dois modos bons de servir a Deus. Há um só: servi-lo como ele quer ser servido” – “O sacerdócio é o amor do coração de Jesus” – Meu Deus, faz-me a graça de amar-te tanto quanto é possível que eu te ame”. Amem!


D. Bruno Forte
Arcebispo de Chieti-Vasto
Tradução de Pe. Siro Manuel de Oliveira
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