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sábado, 10 de abril de 2010

Evangelho do domingo, 11 de abril, Jo 20, 19-31: Meu Senhor e meu Deus!



II DOMINGO DA PÁSCOA
11/04/2010
Ano C
At 5, 12-16
Sl 117
Ap 1, 9-11a.12-13.17-19
Jo 20, 19-31

Meu Senhor e meu Deus!

Era a manhã de páscoa. Aqueles primeiros discípulos estavam escondidos, cheios de medo. Jesus se apresenta no meio deles: Eu em pessoa desde estes sinais de morte. Eu os saúdo com minha Vida.

«E os discípulos se encheram de alegria ao ver o Senhor». Era como sair de um pesadelo e ver com seus próprios olhos o milagre das promessas de seu Mestre cumpridas; receber sua paz em meio a todos os tormentos que lhes afligiam. Quando Tomé chegou, o discípulo que faltava, rapidamente lhe deram a grande notícia: «Vimos o Senhor». Mas era insuficiente para quem também havia visto todo o processo do Senhor. Não era fácil apagar de sua memória aquele pânico que fez seus companheiros esconderem-se. Por isso sua resposta: eu vi como Ele morreu. Se dizem que esteve aqui, eu acreditarei se apalpar sua evidência.

A condescendência de Deus para com todas as durezas dos homens está representada na resposta que Tomé recebe por parte de Jesus, quando ao voltar ali oito dias depois, lhe diz que toque o que lhe parecia impossível. É o perfeito tipo de agnóstico, tão comum hoje em dia: não nego que isto sucedeu, mas se não o vejo e não o toco, não creio.

E a este agnosticismo Jesus o chamará simplesmente incredulidade: «Aproxima a tua mão e coloca-a em minha chaga, e não sejas incrédulo mas creia». A famosa resposta de Tomé é a que recitamos interiormente depois da consagração da Eucaristia: «Meu Senhor e meu Deus», dando fé da Presença Real de Jesus Cristo que os sentidos nos roubam na aparência do pão e do vinho.

Hoje, nós que cremos na Ressurreição de Jesus, temos que prolongar aquele diálogo entre Jesus e seus discípulos: anunciar a vida nos estigmas da morte em as todas suas formas.

Somos as testemunhas de que aquilo que aconteceu a Jesus, também sucedeu a nós: o ódio, a obscuridade, a violência, o medo, o rancor, a morte, quer dizer, o pecado, não tem já a última palavra. Cristo ressuscitou e Nele foram mortas todas as nossas mortes. Disto somos testemunhas. Apesar de todas as cicatrizes de um mundo velho, não solidário, violento, que mancha a dignidade do homem e não dá glória a Deus, nós dizemos: Vimos o Senhor! Oxalá nossa geração se encha de alegria como aqueles discípulos e como Tomé diga também: Meu Senhor e meu Deus!


D. Jesús Sanz Montes, ofm
Arcebispo de Oviedo
Administrador Apostólico de Huesca e Jaca
Arquidiocese de Oviedo

sábado, 27 de março de 2010

Evangelho do domingo, 28 de março, Lc 22, 14-23, 56: Foi por mim



Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
Ano C
Is 50,4-7
Sl 21
Fl 2,6-11
Lc 22, 14-23, 56

“Foi por mim”

Chegamos às portas da Semana Santa. Passo a passo, fomos nos aproximando do cenário no qual Outro pagou a nossa conta devida. Coloquemo-nos também nós nessa multidão amontoada naquele dia em torno da festa judaica.

Eles e nós temos, sempre, umas escuridões que pedem para ser iluminadas, umas mortes que esperam ser ressuscitadas. Nós estávamos lá. E o que aconteceu lá, para nós acontece hoje. Em Jerusalém existia o costume de dar as boas-vindas aos peregrinos que chegavam para celebrar a Páscoa com as palavras do salmo 118: “Bendito o que vem em nome do Senhor!”. Jesus não foi exceção. Ele enviou previamente dois discípulos para que trouxessem um jumentinho e, se alguém estranhasse e perguntasse o porquê, deveriam responder: “O Senhor precisa dele”. Um humilde portador de quem vem como rei em nome de Deus. A tradição iconográfica mostra mais vezes um jumento junto a Jesus: na viagem de Nazaré a Belém, quando Maria levava em seu seio Aquele que nasceria sem o abrigo de uma pousada; na gruta do nascimento e na fuga ao Egito.

O Senhor precisava de um jumentinho! Detalhe carregado de humanidade e simplicidade, oposto à cavalgadura do poderio. São as necessidades de um Deus que escolhe sempre o fraco e aquele que não vale nada para confundir os prepotentes (1 Cor 1,26-28), e assim se reconhecerá a imagem do Servo tomando a condição de escravo, sem fazer alarde de sua categoria de Deus (Flp 2,6-11), para poder dar uma palavra de alento a quem quer que esteja abatido (Is 50,4-7).

É o estremecedor relato do que custou a nossa redenção. Nesse drama está a resposta de amor extremo por parte de Deus. Nossa felicidade, o acesso à graça, teve um preço: Ele pagou por nós.

Devemos nos situar nesse cenário, pois é o nosso próprio cenário, onde Deus, em seu Filho, obterá para nós a condição de filhos diante d’Ele e irmãos entre nós. É o estupor que experimentava a mística franciscana Ângela de Foligno ao contemplar a Paixão: “Tu não me amaste de brincadeira”; ou o realismo com que Paulo agradecerá a doação do seu Senhor: “Ele me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

Sem este realismo que personaliza, estaríamos como espectadores ausentes que, no máximo, acompanham o desenvolvimento do processo de Deus lá da platéia da lástima ou da indiferença. Por isso, posso dizer realmente que eu estava lá, que tudo isso foi por mim.

Só quem reconhece esse por mim adorará o Senhor com um coração agradecido.


D. Jesús Sanz Montes, ofm
Arcebispo de Oviedo
Administrador Apostólico de Huesca e Jaca
Arquidiocese de Oviedo

sábado, 13 de março de 2010

Evangelho do domingo, 14 de março, Lc 15,1-3.11-32: O Pai nos abraça, nos beija e nos convida à festa do seu perdão, com uma misericórdia sem fim



IV Domingo da Quaresma
Ano C
Js 5,9a.10-12
Sl 33
2Cor 5,17-21
Lc 15,1-3.11-32


O Pai nos abraça, nos beija e nos convida à festa do seu perdão, com uma misericórdia sem fim

Era uma cena complicada, que Jesus resolverá com uma parábola impressionante. Em volta dele, por um lado aparecem os publicanos e pecadores (o filho mais novo), e os fariseus e letrados por outro (o filho mais velho). Mas o protagonismo não recai nos filhos nem em suas representações, mas no pai e em sua misericórdia.

A breve explicação da má vida do filho menor, as considerações que faz a si mesmo e o resultado final da sua frívola fuga têm um final feliz. É surpreendente a atitude do pai no encontro com seu filho, descrita com intensidade nos verbos que desarmam os discursos de seu filho, indicando a tensão do coração misericordioso desse pai: “Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos”.

O erro que o conduziu à fuga rumo às miragens de uma falsa felicidade e de uma escravizante independência será transformado pelo pai em encontro de alegria inesperada e imerecida. A última palavra dita por esse pai sobressai sobre todas as penúltimas ditas pelo filho. É o triunfo da misericórdia, da graça e da verdade.

Triste é a atitude do outro filho, cumpridor de seus deveres, isento de escândalos, mas ressentido e vazio. Se ele não pecou como seu irmão, não foi por amor ao pai, mas por amor a si mesmo. Quando a fidelidade não produz felicidade, não se é fiel por amor, mas por interesse ou por medo. Havia permanecido com seu pai, mas sem ser filho, colocando um preço ao seu gesto. Ele pôde ter mais do que exigia sua mesquinha fidelidade, mas seus olhos torpes e seu coração duro foram incapazes de ver e de se alegrar. “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”, disse-lhe o pai. Tendo tudo, ele se queixava da falta de um cabrito. Quem vive calculando, não consegue entender, nem sequer consegue ver o que lhe é oferecido gratuitamente, em uma quantidade e qualidade infinitamente maiores que sua atitude tacanha pode esperar.

A trama desta parábola é a trama da nossa possibilidade de ser perdoados. Como disse Péguy, Deus, com esta parábola, foi aonde nunca antes se havia atrevido, acompanhando-nos com esta palavra muito além de quanto nos acompanha com outras palavras também suas. O sacramento da Penitência, que recebemos especialmente nestes dias quaresmais, é o abraço desse Pai que, vendo-nos em todos os nossos afastamentos, aproxima-se de nós, nos abraça, nos beija e nos convida à festa do seu perdão, com uma misericórdia sem fim.


D. Jesús Sanz Montes, ofm
Arcebispo de Oviedo
Administrador Apostólico de Huesca e Jaca
Arquidiocese de Oviedo

sábado, 6 de março de 2010

Evangelho do domingo, 07 de março, Lc 13, 1-9: A outra oportunidade



Ano C
III Domingo da Quaresma
Ex 3,1-18a.13-15
Sl 102
1Cor 10,1-6.10-12
Lc 13, 1-9

A outra oportunidade

No Evangelho deste domingo, Jesus leva em consideração duas notícias da atualidade de então: um grupo de galileus, de alguma facção independentista, havia sido reprimido por Pilatos, para lição e castigo a todo aquele que ousasse atentar contra a ocupação romana. E em segundo lugar, a queda da torre de Siloé, cujo infortúnio causou a morte de 18 vítimas, que pereceram esmagadas.

Naquele então, como agora, houve muitas mortes, cujo desenlace nem sempre tem a ver com a vida que levavam normalmente. Jesus faz uma advertência: o verdadeiro risco de arruinar uma vida não está em um acidente infeliz ou em uma revolta repressiva, mas em não converter-se, isto é, em viver com o olhar e o coração distraídos, descentrados: “Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”.

Para Jesus, fazer o papel de agitador revolucionário não supõe um motivo de diferença exemplar com relação aos demais galileus. E assumir o papel pacífico de transeunte, como ocorreu com as vítimas da torre de Siloé, tampouco torna as pessoas boas por sua neutralidade pacifista. Uns morrem na briga, outros no acidente. Todos igualmente pecadores, diz Jesus. Ele não elogia o guerrilheiro manifesto nem o pacífico cidadão anônimo, mas exalta quem dirige seu coração e tudo o que cabe nele a Deus. O que realmente importa para Jesus não é o que se faz ou se deixa de fazer, mas em nome de quem e por qual motivo.

Jesus propõe uma parábola que enche de misericórdia seu convite à conversão. Diante da desproporção entre a vida a que somos chamados e a realidade nossa de cada dia, podemos ver-nos refletidos nessa história que Jesus conta da figueira que não dava o fruto esperado. É a imagem da nossa lerdeza e distância do desígnio de Deus. Mas também Jesus é imagem do vinhateiro bom, com cuja paciência chegará a salvar a vida da sua vinha.

Converter-se é aceitar esse cuidado, essa espera e essa atenção. Converter-se é deixar-se levar por Outro, falar em seu Nome, continuar sua Boa Notícia, dar a vida por, com e como Ele. A conversão não é tanto protagonizar nossos gestos salvadores, e sim permitir ser visto, permitir ser conduzido e assistir ao milagre de que, na convivência misericordiosa com Ele, nossa vinha perdida pode ser salva e dar o devido fruto.

Esta é a esperança que Cristo nos anuncia e que em sua Igreja nos reserva.


Dom Jesús Sanz Montes, ofm
Arcebispo de Oviedo
Administrador Apostólico de Huesca e Jaca
Zenit

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Evangelho do domingo, 28 de fevereiro, Lc 9, 28b-36: A Voz da brisa



Ano C
II Domingo da Quaresma
Gn 15, 5-12.17-18
Sl 26
Fl 3,17- 4,1
Lc 9, 28b-36


OVIEDO, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org) - Apresentamos a meditação escrita por Dom Jesús Sanz Montes, OFM, Arcebispo de Oviedo, Administrador apostólico de Huesca e Jaca, sobre o Evangelho deste domingo (Lc 9, 28b-36), 2º da Quaresma.

* * *

Não é somente a voz do tentador que chega até nós. Há também outras vozes que o próprio Deus nos sussurra na hora da brisa. Esta é a belíssima cena do Evangelho deste domingo.

Em um entardecer qualquer, Jesus leva Pedro, João e Tiago ao Monte Tabor para orar. Talvez fosse a oração da tarde, como era costume entre os judeus. E então ocorre o inesperado. A tripla atitude diante do que aconteceu é tremendamente humana e nela podemos facilmente nos reconhecer: o cansaço, o delírio e o temor.

Também nós, como aqueles três discípulos, experimentamos um sopor cansativo diante da desproporção entre a grandeza de Deus e nosso permanecer como alheios (“estavam com muito sono”). Inclusive, ébrios da nossa desproporção, chegamos a delirar, e dizemos coisas que têm pouco a ver com a verdade de Deus e nossa própria verdade (“não sabia o que estava dizendo”).

E quando, apesar de tudo, vemos que sua presença nos envolve a abraça, dando-nos o que não esperamos nem merecemos, então sentimos confusão, medo (“ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem”).

O Tabor, onde os três discípulos veriam a glória do Messias, é contraponto do Getsêmani, onde os mesmos se angustiarão diante da dor agônica do Redentor. Como âmbito exterior: a nuvem e a voz de Deus. Como mensagem: ouvir o Filho amado. Como testemunhas: Elias e Moisés, preparação da plena teofania de Deus na humanidade de Jesus Cristo.

Ouvir a palavra do Filho amado, derradeiro porta-voz das falas do Pai, foi também a mensagem no Batismo de Jesus: escutai o que Ele diz. Um imperativo salvador que brilha com luz própria na atitude de Maria: faça-se em mim segundo a tua palavra. Ela guardará a palavra em seu coração, ainda que não a entenda; e convidará os serventes de Caná a fazerem o que Jesus disser; e, por isso, Ele a chamará de bem-aventurada: por ouvir a Palavra de Deus cada dia e vivê-la. Inclusive ao pé da cruz, onde pendia a morte, Maria continuou fiel, pressentindo a pulsação ressuscitada da vida.

O delírio de Pedro, devedor do seu temor e do seu cansaço, proporá fazer do Tabor um oásis no qual descansar seus sonhos, entrar em sensatez e livrar-se dos seus medos. Mas Jesus convidará a descer ao vale do cotidiano, onde no cada dia somos reconciliados com o extraordinário e implacável realismo. A fidelidade de Deus continuará nos envolvendo, com nuvens ou sol, dirigindo-nos sua Palavra, que continuará ressoando na Igreja, no coração e na vida.


Dom Jesús Sanz Montes
Arcebispo de Oviedo
Administrador Apostólico de Huesca e Jaca

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Evangelho do domingo, 14 de fevereiro, Lc 6,17.20-26: A janela das bem-aventuranças, uma janela feliz



Ano C
VI Domingo Comum
Jr 17,5-8
Sl 1
1Cor 15,12.16-20
Lc 6,17.20-26

Evangelho do domingo: A janela das bem-aventuranças, uma janela feliz

OVIEDO, sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a meditação escrita por Dom Jesús Sanz Montes, OFM, Arcebispo de Oviedo, Administrador Apostólico de Huesca e Jaca, sobre o Evangelho deste domingo (Lc 6, 17.20-26), 6º do Tempo Comum.

* * *

Descia Jesus da montanha com aqueles Doze mais íntimos e, ao encontrar-se com um grande grupo de discípulos, resolveu levá-los até a sua “janela”. Parecia perguntar-lhes: “O que vocês vêem da sua janela?”. O espetáculo humano às vezes é tão cruel e cotidiano, que até chegamos a pensar que deveria ser assim, sem outras alternativas: ricos à custa de pobres, fartos à custa de famintos, gargalhadas à custa de lágrimas, poderosos à custa de submissos.

Jesus propunha outro espetáculo, incrível e paradoxal: justamente o contrário daquele drama: os pobres se tornavam reis, os famintos eram saciados, os que antes choravam agora sorriam com esperança e os insultados pulavam de alegria com uma dignidade insólita.

Será que Jesus era um álibi, um super-homem que procurava a adesão dos seus deslumbrados ouvintes? Em suas palavras não havia o mais leve indício de oportunismo demagógico. Ele não estava preparando sua campanha publicitária ou eleitoral. Era simplesmente questão de olhar da janela de Deus.

Todos os desajustes que se contemplavam da janela do mundo geravam mal a todos: dor a quem sofria e suportava e vazio a quem provocava. Para os primeiros, Jesus abrirá uma porta de esperança: apesar de tudo e de todos, vocês poderão ser felizes e bem-aventurados. Para os segundos, dará um aviso: ai de vocês que mancham a beleza original, ai de vocês que corrompem a bondade do princípio.

A janela das bem-aventuranças não nos convida a fechar os olhos diante da dura realidade, mas a contemplar o que esta deveria ser, trabalhando para que seja assim. Jesus é a primeira pedra desse lar humano: Ele nos revelou que a verdadeira felicidade – que tão torpemente buscam os homens, às vezes – não está nesse desajuste que mereceu a lamentação do Senhor, e sim em sua Pessoa viva, em sua mensagem e seu destino: a misericórdia terna que nos devolve a possibilidade de nos parecermos com Deus, a liberdade que faz de nós filhos seus, o amor que nos torna irmãos dos demais.

Por isso, Jesus, ao descer da montanha, mostrará outra janela da qual se vislumbra o ocaso do terror, do ódio, das invejas, das fomes, das escuridões. E, dirigindo-se aos seus, proporá: não percam tempo em lamentações estéreis; construam um mundo novo, começando por vocês mesmos.

O cristianismo tem a missão de estrear esse céu já na terra, como primícia do mundo querido por Deus: que faz as pessoas felizes, que transforma as tristezas, as fomes, os absurdos... em felicidade bem-aventurada. E Jesus convidava a olhar da sua janela, tornando realidade o que nela se contemplava. Porque Jesus sempre via com os olhos de Deus.
E nós, de que janela estamos olhando? Uma forma de saber isso é perguntar-nos o que os outros enxergam em nós, cristãos, quando nos vêem viver e morrer, alegrar-nos, trabalhar, sofrer e rir... das janelas deles.


Dom Jesús Sanz Montes
Arcebispo de Oviedo
Administrador Apostólico de Huesca e de Jaca

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Evangelho do domingo, 31 de janeiro, Lc 4,21-30: Como mais um, sem ser qualquer um



Ano C
IV Domingo Comum
Jr 1,4s.17-19
Sl 70
1Cor 12,31–13,13
Lc 4, 21-30


Evangelho do domingo: como mais um, sem ser qualquer um

HUESCA, sexta-feira, 29 de janeiro de 2010 (ZENIT.org) - Publicamos o comentário ao Evangelho deste domingo, 4º do Tempo Comum (Lucas 4, 21-30), redigido por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, Bispo de Huesca e de Jaca, Arcebispo eleito de Oviedo (Espanha), sede da qual tomará posse neste sábado.

* * *

A cena do Evangelho deste domingo nos situa com Jesus na sinagoga de Nazaré. Jesus passou por lá pouco tempo depois da visita anterior e, em seu fugaz regresso, descobriu a indiferença repleta de preconceito dos seus conterrâneos com relação à sua Pessoa. Em pé, Jesus dirá aquela frase que se tornou célebre: ninguém é profeta em sua terra.

Qual era a dificuldade dos nazarenos com relação a Jesus? Precisamente uma familiaridade que os impedia de reconhecer n’Ele alguém maior que o filho do carpinteiro, o da Sra. Maria. Eles acreditavam conhecer a quem, no fundo, desconheciam profundamente. Em espanhol, temos esse ditado belíssimo: “Del roce nace la querencia”. Mas já vimos que nem tudo é assim sempre: podemos amar aqueles a quem não podemos tocar pela distância e ignorar calamitosamente a quem vemos e com quem tratamos todo dia. Então vem à memória a pergunta decisiva de Jesus aos seus discípulos: O que as pessoas dizem de mim? E vocês, quem dizem que eu sou? Esta é uma pergunta que poderia ser feita a nós, hoje.

Os nazarenos conheciam Jesus como se conhece um conterrâneo, alguém do bairro. Nós podemos conhecê-lo a partir do verniz das pinturas, do escorço de algumas imagens ou da literatura que nos fala d’Ele. Para muitos, este seria o bairro ou a paisagem em seu conhecimento de Jesus. Podemos dizer que há um halo cultural que nos permite saber d’Ele algumas coisas comuns, talvez algumas coisas a mais que as que seus conterrâneos conheciam. Eles recordavam de Jesus o que haviam visto em sua juventude, enquanto cresciam no povoado. Nós podemos recordar o que aprendemos rapidamente. Mas só conhece Jesus quem se fiou da sua palavra e quem foi seduzido pela sua presença.

Hoje é um dia para desejar conhecer o Senhor por dentro, a partir do coração que ora e que ama, a partir do testemunho que narra, com atos simples e cotidianos, o amor que o invade e o torna pleno. Somente assim podemos dizer que Jesus não é um estranho profeta na terra da nossa vida, mas um Deus vizinho, cuja casa tem entranha e tem lar; uma casa habitada, que abre e escancara as portas. Com Ele convivemos; a Ele vamos contar nossas tristezas, buscando o consolo nos desgostos, quando a vida parece que tenta nos acurralar; a Ele vamos também para agradecer pelos dons, pelas muitas alegrias com as que também esta vida sorri para nós. E descobrimos que esse Bom Deus, o melhor vizinho, sabe rir e sabe chorar, porque se importa com a nossa vida, com o nosso destino e com a nossa paz.

Deus, sem ser qualquer um, quer ser entre nós como um a mais, que não somente é o Caminho, mas também o caminhante junto a cada um.


Dom Jesús Sanz Montes
Bispo de Huesca e de Jaca
Arcebispo eleito de Oviedo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Evangelho do domingo, 23 de janeiro: hoje, uma Boa Notícia



Evangelho do domingo: hoje, uma Boa Notícia

HUESCA, quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 (ZENIT.org) - Publicamos o comentário ao evangelho deste domingo, 3º do Tempo Comum (Lucas 1,1-4; 4,14-21), redigido por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, Bispo de Huesca e de Jaca, Arcebispo eleito de Oviedo.

* * *

III Domingo Comum – Ano C
Ne 8,2-4a.5-6.8-10
Sl 18B
1Cor 12,12-30
Lc 1,1-4; 4,14-21

Lucas começa seu evangelho comunicando algo que é o coração do cristianismo: ocorreu um fato, que não é uma bela fábula, e sim um acontecimento. Há testemunhas que o viram pessoalmente e o proclamaram com seus lábios.

A cena se situa na sinagoga de Nazaré. Jesus, em pé, lê uma profecia especialmente querida e esperada pelos fiéis judeus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4, 18). Uma leitura mais ou menos conhecida e desejada, mas, enfim, uma leitura. O sucesso vem a seguir, quando Ele devolve o livro e, diante de todos os que estavam na sinagoga e que “tinham os olhos fixos nele” (Lc 4, 20), diz: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21).

Toda a carga emotiva daquela cena estava neste advérbio: “hoje”. Ele dizia: já, hoje é tempo de boas notícias. Como quando os anjos anunciaram aos pastores ao nascimento de Jesus: “Hoje vos nasceu um salvador” (Lc 2, 11); ou como quando Jesus encontrou Zaqueu e lhe disse “Hoje, a salvação entrou nesta casa” (Lc 19, 1-10); ou quando diz ao bom ladrão, Dimas: “Eu te asseguro que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). A catequese dos primeiros cristãos, a que Lucas faz com Teófilo, não consiste em contar coisas de Jesus, mas na transmissão de uma Palavra e de uma presença vivas!

Só poderemos entender Jesus e alegrar-nos pelo seu anúncio se este nos trouxer uma salvação real para nossas prisões, pobrezas e cegueiras. Teremos de reconhecer, sem maquiagem nem ignorâncias culpáveis, quais são as coisas que nos escravizam, as que nos empobrecem e cegam. Aguentar o puxão e a vertigem de que nem tudo é tão livre, nem tão auto-suficiente, nem tão claro como achávamos ou nos fizeram achar. Mas no realismo das nossas dificuldades cotidianas, lá onde brotam os barrotes que escravizam, os consumos que empobrecem nosso coração e a dignidade dos verdadeiramente pobres, as obscuridades que nos cegam, lá é onde somos convocados para ouvir o hoje da nossa salvação, o hoje da nossa liberdade, da nossa alegria e da nossa luz. Somos chamados ao abraço de Deus em seu hoje e a prolongá-lo a partir da nossa comunidade cristã, do nosso lar, do nosso coração, para que os cativos de hoje, os pobres de hoje e os cegos de hoje possam experimentar outra história, outro hoje que tenha sabor de boa notícia, de evangelho. Para que aquele hoje de dois mil anos atrás nos seja tão atual, assim como Deus presente entre nós.


Dom Jesús Sanz Montes
Bispo de Huesca e de Jaca
Arcebispo eleito de Oviedo

domingo, 17 de janeiro de 2010

Evangelho do domingo: nas Bodas de Caná o vinho da vida




2º Dom Tempo Comum
Ano C
Is 62,1-5
Sl 95
1Cor 12,4-11
Jo 2,1-11

Evangelho do domingo: o vinho da vida

HUESCA, sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 (ZENIT.org) - Publicamos o comentário ao Evangelho deste domingo, 2º do Tempo Comum (Jo 2, 1-12), redigido por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, Bispo de Huesca e de Jaca (Espanha), arcebispo eleito de Oviedo.

* * *

Hoje, o Evangelho nos convida a um casamento. Será o primeiro milagre de Jesus que acontecerá nele. São João apresenta seu relato evangélico a partir do fio condutor da “hora”. Tudo o que ele recolheu sobre Jesus tem como finalidade levar o leitor à contemplação da entrega suprema de Cristo, verdadeira “hora” na qual o Senhor dará por terminado o que o Pai lhe havia confiado: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Por isso, Jesus insiste em que ninguém modifique seu “horário” redentor: explica-se assim que, no relato das bodas de Caná, Jesus diga à sua Mãe: “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou” (Jo 2, 4). Não é um desprezo do Senhor com relação a Maria, mas uma afirmação que Ele faz da absoluta primazia das coisas do seu Pai, às quais se dedicará antes que a qualquer outra.

É a primeira hora, antecipação daquela derradeira, em que Maria, junto a João, voltará a aparecer na cena de Jesus, que se dirigirá novamente a ela para chamá-la com o mesmo nome, “mulher”, tornando-a “mãe” de João e da nova humanidade que nascerá quando Jesus ressuscitar no primeiro dia da semana, isto é, também “três dias depois” daquela cena ao pé da cruz.

Maria percebe algo que falta: o vinho. Faz da sua descoberta uma petição ao seu Filho e convida os que estavam servindo a escutarem esta Palavra de Jesus: “Fazei o que ele vos disser”. Ela lhes propõe o que no fundo foi sua vida desde que decidiu que se cumprisse nela a vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Ela propõe aos outros algo que não lhe é estranho, que é a entranha da sua atitude diante de Deus.

Qual é o vinho que nos falta neste mundo? O vinho da paz, da ternura; o vinho da fé, da esperança e do amor; o vinho da verdade...? Quando faltam esses vinhos, a vida se “avinagra”. Surgem os interesses partidários, as trapaças econômicas, as frivolidades vácuas, a mentira como ferramenta de comunicação, o relativismo moral, a violência e o terror.

Maria viu o que faltava no casamento, fez sua essa necessidade solidariamente e colocou mãos à obra. Não ficou apenas relatando o que acontecia e lamentando pelo que faltava ou estava ruim. Perceber o “vinho” que nos falta, dar uma mão no que depender de nós, tendo na Palavra de Jesus nossa força e nossa luz. Caná foi isso. Maria foi assim.

O Evangelho termina dizendo que “seus discípulos creram nele” (Jo 2, 11). O final é que, havendo vinho, houve festa e os discípulos, vendo o sinal, o milagre, acreditaram em Jesus. Sim, precisamos de milagres de “vinho”; o mundo precisa ver que os vinagres do absurdo se transformam em vinho bom e generoso, o do amor e da esperança, o que germina na fé.

Sempre há um brinde por fazer. Que seja com um vinho como o de Maria em Caná.


Dom Jesús Sanz Montes
Bispo de Huesca e de Jaca
Arcebispo eleito de Oviedo

domingo, 23 de agosto de 2009

Evangelho: ser um milagre para os demais




XVII Dom do Tempo Comum
Ano B
2Rs 4,42-44
Sl 144
Ef 4,1-6
Jo 6,1-15


Evangelho de Domingo: ser um milagre

Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, Bispo de Huesca e de Jaca


HUESCA, sexta-feira, 24 de julho de 2009 (ZENIT.org) - Publicamos o comentário ao Evangelho deste domingo (João 6, 1-15), XVII do tempo comum, oferecido por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, Bispo de Huesca e de Jaca.

* * *

O Evangelho deste domingo dá sequência ao da semana passada onde Jesus percebeu outro tipo de carência, talvez mais elementar mas igualmente evidente, entre aquela multidão que o seguia: não só não tinham pastor e precisavam de ensino, mas tampouco tinham pão, e então, igualmente precisavam de alimento: “Jesus, ao ver que muita gente se reunia disse a Felipe: com que compraremos pães para que comam?”. Em meio à estranheza de Felipe chega André e aponta uma solução: aqui há um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes, mas o que é isto para tanta gente?

A evidente provocação estava servida, e ante a desmedida missão de ter que alimentar tantos com tão pouco, era lógica aquela reação dos discípulos: isso nos supera, não sabemos o que fazer nem por onde começar. Como diz o Evangelho de Marcos: “vamos comprar duzentos denários de pão para dar-lhes de comer?”.

Jesus fez esse milagre ante todos, e ficou manifesta a grandeza de Deus... mas através da pequenez humana: foi realizado com a ajuda humilde do menino que encontrou André, com seus cinco pães e seus dois peixes. É um impressionante testemunho de como Jesus não quis mostrar-nos um rosto de Deus auto-suficiente e depreciativo com respeito a seus filhos, mas que – por assim dizer – quis ter necessidade de nossa pequena colaboração humana para que sua grandeza divina possa ser manifestada.

Outras fomes de outros pães têm atingido nossa querida humanidade: a paz, o trabalho, a justiça, o amor, o respeito, a esperança, a fé, a verdade... e um longo etcétera tão imenso quanto a própria humanidade. São muitas as fomes dos homens. Talvez haja quem espere de Deus um milagre sonoro e estrondoso. Enquanto Jesus continuará nos dizendo como então: dai-lhes vós de comer, buscai o pão adequado para essas fomes concretas. Então sentiremos o mesmo estupor que sentiram os discípulos no lago da Galiléia. Jesus continua fazendo milagres, mas estes passam por nossas mãos, nosso coração, nossos olhos, nossos lábios: Ele precisa também hoje de nossos pães e nossos peixes, para dar de comer à multidão de tão diversas fomes. O milagre somos nós, que oferecendo nossa pequenez, Deus converte em grandeza, em sinal. E também hoje as pessoas ficarão saciadas. Não vemos a fome? Não nos vemos como o pão que é partilhado pelas mãos de Jesus? Deixemo-nos tomar, partir e repartir, deixemo-nos ser milagre para os demais.

Dom Jesús Sanz Montes, ofm
Bispo de Huesca e de Jaca