quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Transfiguração: Jesus não é uma abstração; está ressuscitado e vivo





Festa da Transfiguração do Senhor
06 de agosto

Ano B
Dn 7,9-10.13-14
Sl 96
2Pd 1,16-19
Mc 9,2-10


Transfigurou-se diante deles

Por que a fé e as práticas religiosas estão em declive e não parecem constituir, ao menos para a maioria, o ponto de força na vida? Por que o tédio, o cansaço, o incômodo ao cumprir os próprios deveres de crentes? Por que os jovens não se sentem atraídos? Por que, em resumo, esta monotonia e esta falta de alegria entre os crentes em Cristo? O episódio da transfiguração nos ajuda a dar uma resposta a estes interrogantes.

O que a transfiguração significou para os três discípulos que a presenciaram? Até então haviam conhecido Jesus em sua aparência externa, um homem não diferentes dos demais, de quem conheciam sua procedência, seus costumes, seu tom de voz... Agora conhecem outro Jesus, o verdadeiro Jesus, o que não se consegue ver com os olhos de todos os dias, à luz normal do sol, mas que é fruto de uma revelação imprevista, de uma mudança, de um dom.

Para que as coisas mudem também para nós, como para aqueles três discípulos no Tabor, é necessário que aconteça em nossa vida algo semelhante ao que ocorre a um rapaz ou a uma moça quando se apaixonam. No namoro o outro, o amado, que antes era um entre muitos, ou talvez um desconhecido, de repente se converte em único, o único que interessa no mundo. Todo o resto retrocede e se situa em um fundo neutro. Não se é capaz de pensar em outra coisa. Acontece uma autêntica transfiguração. A pessoa amada se contempla como em um raio luminoso. Tudo parece belo nela, até os defeitos. A pessoa pode até se sentir indigna diante do amado. O amor verdadeiro gera humildade. Algo muda também concretamente até nos hábitos de vida. Conheci jovens a quem de manhã seus pais não conseguiam tirar da cama para ir ao colégio; se encontravam um trabalho, em pouco tempo o abandonavam; ou descuidavam dos estudos sem chegar a formar-se nunca... Depois, quando se enamoraram de alguém e começam a namorar, de manhã pulam da cama, estão impacientes por finalizar os estudos, se têm um trabalho, cuidam muito dele. O que ocorreu? Nada, simplesmente o que antes faziam por constrição agora o fazem por atração. E a atração é capaz de fazer coisas que nenhuma constrição consegue; ela coloca asas nos pés. «Cada um, dizia o poeta Ovídio, é atraído pelo objeto do próprio prazer.»

Algo assim, dizia eu, deveria acontecer uma vez na vida para sermos verdadeiros cristãos, convencidos, alegres por sê-lo. «Mas a menina e o menino podemos ver, tocar!» Respondo: também a Jesus se vê e se toca, mas com outros olhos e com outras mãos: do coração, da fé. Ele está ressuscitado e está vivo. É um ser concreto, não uma abstração, para quem teve esta experiência e este conhecimento. Mais ainda, com Jesus as coisas são inclusive melhores. No namoro humano há artifício, atribuindo ao amado qualidades das quais talvez carece e com o tempo freqüentemente se está obrigado a mudar de opinião. No caso de Jesus, quanto mais se conhece e se está do seu lado, mais se descobre novos motivos para estar enamorado d’Ele e seguros da própria escolha.

Isso não quer dizer que se deva estar tranqüilos e esperar, também com Cristo, a clássica «flechada». Se um rapaz, ou uma moça, passa todo o tempo fechado em casa sem ver ninguém, jamais acontecerá nada em sua vida. Para namorar deve estar em contato! Se não está convencido, ou simplesmente começa a pensar que talvez conhecer Jesus deste modo diferente, transfigurado, é belo e vale a pena, então é necessário que comece a entrar em contato, a ler seus escritos. Suas cartas de amor estão no Evangelho! É aí onde Ele se revela, onde se «transfigura». Sua casa é a Igreja: é aí onde podemos encontrá-lo.


Pe. Raniero Cantalamessa
Pregador da Casa Pontifícia
Comentário de 15 de fevereiro de 2008
Cantalamessa.org

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